Título: Farc libertam seus últimos reféns militares
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Fonte: O Globo, 03/04/2012, O Mundo, p. 26
Operação humanitária com apoio do Brasil resgata grupo de dez sequestrados que estavam em cativeiro há mais de 12 anos
VILLAVICENCIO, Colômbia. Em uma operação considerada um indício da fragilidade das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do sucesso da ofensiva do Estado contra a guerrilha, o grupo terrorista libertou ontem seus últimos dez reféns militares na zona rural entre os departamentos (estados) de Meta e Guaviare. A missão humanitária de resgate contou com o apoio do Brasil, que cedeu 22 militares e dois helicópteros Cougar para o resgate, mediado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha e pela organização Colombianos e Colombianas pela Paz (CCP), da ex-senadora Piedad Córdoba. Esta é a quarta missão humanitária a contar com apoio logístico do Brasil e, por isso, foi batizada de "Operação Liberdade Quatro".
O grupo de quatro soldados e seis policiais era mantido em cativeiro há mais de 12 anos, com sequestros entre 1998 e o fim de 1999. A operação de resgate teve início às 10h30m da manhã (horário local), com duas horas de atraso por conta do mau tempo. O helicóptero com os militares pousou às 17h42m.
"Manifestamos nossa grande alegria com o êxito dessa operação que permitiu em um único dia a reunião de dez famílias que estiveram esperando por tantos anos", afirmou Jordi Raich, chefe da delegação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, na Colômbia, lembrando que inicialmente se esperava um resgate em duas etapas.
Familiares aguardaram ansiosamente o retorno durante todo o dia em Villavicencio. Foram celebradas missas pela libertação, e os parentes levaram a comida preferida de cada um dos reféns.
A Cruz Vermelha levou fotos dos parentes para que os sequestrados os reconhecessem após mais de uma década. Eles desceram do helicóptero escoltados, com botas de borracha e barba feita. O sargento Luis Alfredo Moreno saiu abraçado com uma bandeira da Colômbia. Alguns trouxeram animais de estimação da selva, como o chefe de polícia, Wilson Rojas, que trouxe uma cutia, e o sargento da polícia José Libardo Forero, um porco selvagem. Depois de serem levados até psicólogos, tiveram um encontro fechado com familiares e foram levados para Bogotá, onde seriam submetidos a uma série de exames médicos.
Para as Farc, a decisão de libertar os últimos militares reforça a percepção de fragilidade interna no momento em que tentam retomar o processo de negociação com o governo. Diversos especialistas afirmaram ontem que esta era uma oportunidade para o governo do presidente Juan Manuel Santos retomar as conversas de paz. Mas estima-se que o grupo ainda mantenha ao menos 400 civis como reféns.
Santos: "Não basta parar de sequestrar"
Em uma única semana, as Farc perderam 69 guerrilheiros em bombardeios realizados em Arauca e Meta. A nova estratégia de combate do governo, antes focada apenas na captura e morte dos líderes da guerrilha, se concentra agora em usar inteligência para localizar unidades de combate e sufocar suas fontes de financiamento, como tráfico de drogas, mineração ilegal e extorsão. Na última década, o efetivo da organização foi reduzido à metade, e muitos de seus líderes e chefes estão mortos. No mês passado, o grupo já havia dito que abandonaria sua política de sequestros por resgate e libertaria os reféns.
Após a libertação dos reféns, Santos foi claro em dizer que "o gesto" da guerrilha não é suficiente e reafirmou a política de enfrentar a violência do grupo.
— Há centenas de famílias que não sabem o paradeiro de seus entes queridos que foram sequestrados. Não basta parar de sequestrar. É preciso libertar os sequestrados civis. Agradecemos as ofertas de boa vontade, mas a paz é um assunto da Colômbia e cujo manejo corresponde ao presidente da República. No momento em que o governo considerar que existem condições e garantias para o término do conflito, o país saberá — afirmou o presidente, em resposta ao comunicado lido pelo grupo na entrega dos reféns que pede um diálogo de paz.
Para o analista de conflito Juan Carlos Palou, o gesto não deveria ser subestimado no momento em que a guerrilha busca uma saída digna para o conflito. Para o consultor de segurança Haroldo Bedoya, o que se vê é uma estratégia das Farc para conseguir vantagens políticas.
— Buscam atenção internacional, querem seguir aparecendo diante do mundo como um exército— disse ao "El Tiempo".