Título: Família tenta provar morte sob tortura
Autor: Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 03/04/2012, O País, p. 10

Viúva de ex-dirigente do PCdoB, morto durante a ditadura, pede a retificação no óbito

BRASÍLIA. A família do ex-dirigente do PCdoB João Batista Franco Drumond, que morreu em 16 de dezembro de 1976, vítima dos agentes da ditadura, entrou com uma ação de retificação da certidão de óbito. Na versão oficial dos militares, Drumond teria sido atropelado após fuga do DOI-Codi e do cerco policial.

Amigos que foram presos e levados com ele ao DOICodi, porém, testemunham que Drumond morreu após sofrer sessões de tortura.

O episódio da morte de Drumond ficou conhecido como Chacina da Lapa, onde foram executados dois outros dirigentes do PCdoB: Pedro Pomar e Ângelo Arroyo.

Pomar e Arroyo.

A viúva de Drumond, a psicóloga Maria Ester Cristeli Drumond, que vive em Paris, quer excluir da certidão a informação de que seu companheiro morreu na avenida 9 de Julho e trocá-la por "falecido no dia 16 de dezembro de 1976, nas dependências do DOI-Codi II Exército, em São Paulo." E onde se lê que a causa da morte foi "traumatismo craniano encefálico", ela quer que seja retificado para morte "decorrente de torturas físicas." Tese de atropelamento é uma farsa, diz advogado O advogado Egmar José de Oliveira, que é conselheiro da Comissão de Anistia, defende a família e entrou com a ação na Vara de Registros Públicos de São Paulo na semana passada. Com base em depoimentos dos companheiros presos junto com Drumond, Egmar sustenta que a tese dos militares é uma farsa.

— A família deseja o restabelecimento oficial da verdade — declarou o advogado.

Três ex-companheiros de Drumond no PCdoB, e que foram presos com ele, deram seus testemunhos na semana passada. O ex-deputado federal Aldo Arantes foi um deles.

"Fui colocado em uma sala nu e encapuzado, onde fui vítima de tortura e, de repente, a tortura cessou. Fui levado para uma sala e fiquei algemado ao pé da cama e ouvi um barulho intenso de uma reunião polêmica... Fui entender que era uma reunião para se decidir o que fazer após o assassinato do Drumond", relatou Aldo Arantes, no depoimento prestado.

Wladimir Pomar, que também foi preso, fez um relato que deve auxiliar na ação movida pela família de Drumond: "Depois de um tempo, eu descobri que o Drumond tinha sido preso... Depois de um tempo, houve um enorme barulho.

Ouvia movimentação de policiais descendo e subindo e vozes gritando "chama o doutor" e que ainda diziam "esse aí caiu". Mais tarde, vim a descobrir que se tratava da morte do Drumond".

O ex-deputado Nilmário Miranda também depôs. Ele relatou o caso de Drumond na Comissão de Mortos e Desaparecidos, que, em 1996, entendeu, por unanimidade, que o militante do PCdoB foi morto após torturas.

O presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, também colaborou, testemunhando sobre o caso. A Comissão da Anistia, assim como a de Mortos e Desaparecidos, concluiu que o ex-dirigente do PCdoB foi assassinado pelos agentes do Estado.