Título: ONU envia observadores preliminares à Síria
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Fonte: O Globo, 04/04/2012, O Mundo, p. 29

Criticado, Conselho de Segurança retoma ações ao tentar aprovar declaração presidencial de apoio ao cessar-fogo de Annan

MANIFESTANTES DESAFIAM e empunham bandeiras sírias num protesto noturno em Damasco: tropas estariam recuando em alguns pontos

AP

NOVA YORK. As 42 mortes registradas ontem na Síria e bombardeios contra as cidades de Hama, Homs e Zabadani tornaram ainda mais pessimistas os prognósticos para a aplicação de um cessar-fogo até o próximo dia 10, conforme acordado entre o governo do presidente Bashar al-Assad e o enviado especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan.

Embora o regime sírio tenha informado que as tropas estavam se retirando de áreas urbanas - mas, cercando outras, consideradas sensíveis, segundo ativistas -, as Nações Unidas retomaram a pressão sobre Damasco. Além de anunciar o envio de um grupo preliminar de observadores ao país, o poderoso Conselho de Segurança, circulou entre os 15 países-membros, por iniciativa da França, um anteprojeto de declaração presidencial (sem caráter mandatório) para endossar o novo prazo para o fim das hostilidades.

Premier turco culpa conselho por repressão

Com a entidade máxima da ONU criticada por discursos cada vez mais vagos em meio ao impasse entre seus membros permanentes - Rússia e China vêm bloqueando qualquer tentativa de resolução contra o regime Assad -, a embaixadora americana, Susan Rice, justificou a manobra.

- O objetivo é dar mais apoio ao enviado especial Kofi Annan e destacar a importância de o governo sírio respeitar esse compromisso. Caso não usem esta janela para se desmobilizar, mas para aumentar a violência, entenderemos que o Conselho de Segurança terá que reagir de maneira séria e muito urgente - disse ela, esquivando-se, mais uma vez, de detalhar como.

Em Genebra, o porta-voz de Annan, Ahmad Fawzi, explicou que o Departamento de Operações de Paz da ONU (DPKO, na sigla em inglês), está preparando uma equipe preliminar, prevista para embarcar rumo a Damasco até amanhã. O objetivo é discutir com autoridades locais o estabelecimento de um grupo permanente, formado por entre 200 e 250 monitores, para supervisionar o cessar-fogo - com o respaldo de resolução do conselho.

Mas, sem garantias de sucesso apesar dos preparativos para a aguardada trégua, a instituição acabou atacada por outro parceiro de peso na mediação síria: o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Carregando o ônus de ter que prestar apoio a cerca de 20 mil refugiados do país vizinho em seu território, Erdogan não poupou críticas a Rússia e China pelos vetos às tentativas de ação diplomática, que classificou de "um fiasco para o mundo civilizado".

- Ao não tomar uma decisão, o Conselho de Segurança da ONU indiretamente apoiou a repressão. Ficar de mãos e braços cruzados enquanto o povo sírio morre todos os dias é apoiar a repressão - disse.

Em outra frente de pressão, o chefe do Comitê da Cruz Vermelha Internacional, Jakob Kellenberger, se reuniu em Damasco com os ministros sírios do Exterior, Walid al-Muallem, e do Interior, Mohammed al-Shaar. Ele pediu acesso às prisões e tréguas diárias para prestar socorro aos feridos. Saiu com promessas.

"O ministro revisou os detalhes e as necessidades da Cruz Vermelha e reiterou a disposição da Síria em oferecer toda a assistência para garantir o sucesso de seu trabalho humanitário", informou, em nota, a Chancelaria.

Tio de Assad, "o carniceiro de Hama" quebra silêncio

Em meio ao clima de expectativa pelo cumprimento - ou não - do plano de Annan, uma figura controversa rompeu o silêncio de anos para criticar o regime: Rifaat al-Assad, tio de Bashar, mais conhecido como o "carniceiro de Hama", o homem tido como responsável pelo massacre de milhares no levante promovido pela Irmandade Muçulmana naquela cidade, em 1982. Exilado na França desde 1984, ele afirmou à rede BBC que os dias do sobrinho estão contados:

- Os problemas agora são generalizados. Não acredito que ele possa permanecer no poder. Eu diria, no entanto, que (Bashar) deveria ficar para cooperar com o novo governo e oferecer sua experiência.