Título: Demóstenes vai ao STF tentar anular provas
Autor: Krakovics, Fernanda
Fonte: O Globo, 05/04/2012, O País, p. 9
BRASÍLIA. Advogado do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, pedirá na segunda-feira ao Supremo Tribunal Federal (STF) a anulação das escutas telefônicas, feitas pela Polícia Federal, em que seu cliente aparece tratando dos interesses do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. A alegação é que elas foram feitas sem autorização do STF, o foro privilegiado a que Demóstenes tem direito, e que, portanto, não podem ser usadas como provas contra ele.
No campo político, o senador reforçou a decisão de não renunciar ao mandato, confiante de que contará com o apoio dos senadores no eventual processo por quebra de decoro no Conselho de Ética.
Seu temor, com a renúncia que chegou a ser cogitada, é perder o foro privilegiado e ser preso. Quer ganhar tempo para tentar, enquanto enfrenta processo no Conselho de Ética, desmontar o inquérito no STF, desclassificando as provas.
- A ilegalidade é muito gritante - disse Kakay, explicando que há nos autos um relatório dos "encontros fortuitos" entre Demóstenes e Cachoeira: - São uns 500 encontros fortuitos. Foram meses fazendo acompanhamento do Demóstenes e de deputados. Isso não tem nada de fortuito. Virou uma união estável. Houve usurpação da competência do STF.
Apesar de Demóstenes dizer que tem muitos amigos no Senado, o sentimento na Casa é que ele não escapa do Conselho de Ética. Os diálogos são considerados muito contundentes e ninguém acredita que ele conseguirá se explicar.
Ironicamente, ele se fia na falta de um "Demóstenes" para articular sua cassação no Senado. Aposta na pouca experiência parlamentar dos novos éticos: senadores Pedro Taques (PDT-MT), Ana Amélia (PP-RS) e Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). E espera pelo corpo mole dos chamados "políticos tradicionais" - muitos deles já envolvidos em denúncias.
Demóstenes vai passar o feriado em um sítio
Demóstenes está debruçado sobre os autos e pretende alegar que, apesar de aparecer nos grampos aceitando tarefas de Cachoeira, não teria levado as encomendas adiante. Que não teria ido ao Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, como prometido em uma das ligações.
- Ele é uma falastrão. Nada disso aconteceu. Ele não procurou ninguém. Falava assim para se livrar dos chatos - disse uma pessoa próxima do senador.
Então presidente da Infraero, o brigadeiro José Carlos Pereira confirmou que foi procurado pelo senador, que demonstrou interesse em contratos de informática da empresa. Nessa época, Demóstenes era relator da CPI do Apagão Aéreo.
O ponto-chave, porém, será rastrear o dinheiro que Demóstenes teria recebido, supostamente, do bicheiro:
- A conta dele não tem esse dinheiro - afirmou o aliado.
Kakay informou que Demóstenes foi ontem para um sítio, onde passará o feriadão:
- Ele vai analisar os documentos que eu lhe entreguei.