Título: Um susto a cada novo dia
Autor: Pariz, Tiago
Fonte: Correio Braziliense, 18/09/2009, Política, p. 5
No Senado, as revelações da vez são de um servidor que recebia salário enquanto estava preso e de um gabinete que funcionou como albergue para 15 pessoas
Suplicy: manifestantes entraram no Senado com autorização do senador e não houve dano material
Paulo H. Carvalho/CB/D.A Press - 17/6/08 Marco Maciel: funcionário pago pelo gabinete do senador estava preso
Um senador transforma seu gabinete num albergue e o outro continua pagando o salário de um servidor que viu, por quatro anos, o sol nascer quadrado. A revelação de que o gabinete de Marco Maciel (DEM-PE) manteve por cinco anos um funcionário preso por latrocínio ¿ roubo seguido de morte ¿ na lista do pagamento mensal da Casa mostra que o cuidado dos senadores com funcionário fantasma é quase nulo. Primeiro, apareceu o fato de que um servidor do líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), ficou estudando na Espanha e continuou recebendo salário. Depois, surgiu o caso de um assessor do líder do PMDB, Renan (1)Calheiros (AL), que também se beneficiou da mordomia de estudar fora e manter a o vencimento todo mês.
O caso envolvendo o gabinete de Marco Maciel é digno da falta de controle com os gastos públicos. João Paulo Esteves Coutinho foi pago pelo Senado e também recebe aposentadoria da Casa, segundo informação prestada pelo chefe de gabinete de Maciel, Nelson Rebelo. O funcionário teria sido lotado também no gabinete do então suplente de Maciel, Joel de Hollanda (PE). Hollanda assumiu o mandato quando Maciel disputou a vice-presidência da República, em 1994.
O caso foi apurado por uma comissão de sindicância do Senado que chegou a conclusão de que Silvio Esteves assinava a folha de frequência pelo irmão, João Paulo. E não só. Também embolsava o salário. A assessoria do senador Maciel informou que ele recebeu R$ 219 mil no lugar do irmão.
Hoje aposentado, João Paulo Esteves teria roubado e matado, mas não foi preso na época. Ele entrou na Gráfica do Senado em 1984. De 1991 a 1996, o único expediente que cumpriu foi na detenção. Silvio Esteves dizia que o irmão faltava ao trabalho porque sofria de tuberculose e alcoolismo. Marco Maciel afirmou desconhecer o real motivo pelas faltas do servidor.
Não bastasse o gabinete de Maciel pagar pelo trabalho de um servidor que não aparecia porque estava na prisão, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) está sendo investigado pela corregedoria da Casa por deixar que manifestantes favoráveis ao ativista italiano Cesare Battisti utilizassem seu gabinete. Durante o julgamento do caso Battisti pelo Supremo Tribunal Federal, 15 manifestantes teriam passado a noite no gabinete do senador petista para utilizar os banheiros. Segundo a Polícia Legislativa, ¿alguns manifestantes a favor de Cesare Battisti, que se encontravam acampados em frente ao Supremo Tribunal Federal, se deslocaram para acampar no Senado, mais precisamente no interior do gabinete do senador Eduardo Suplicy¿.
O petista disse que os manifestantes entraram no Senado com sua autorização. E que não houve nenhum dano material ao Senado. O primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (DEM-PI), disse que o caso não é grave mas que a Mesa Diretora decidiu encaminhá-lo à corregedoria por ser um tema ¿delicado¿ que pode abrir o precedente de outros senadores utilizarem os gabinetes durante a noite.
Segundo a Polícia Legislativa, as pessoas entraram no Senado por volta de 0h15 da véspera do julgamento de Battisti, e passaram a noite no gabinete. Algumas espalharam até colchonetes. Heráclito Fortes ironizou as explicações dadas pelo colega petista. ¿Só se todo mundo comeu comida estragada, porque 15 pessoas passarem a madrugada toda para usar o banheiro está mal explicado¿, disse o primeiro-secretário. A Polícia do Senado alega que a ocupação foi irregular por ter sido fora do horário de funcionamento da Casa.
1 - Mais uma O líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), não interrompeu o salário do servidor Rui Palmeira, filho do ex-ministro do TCU Guilherme Palmeira, durante período que passou no exterior. Renan recusou-se dar explicações alegando que ninguém mais aguenta falar de crise no Senado. ¿Eu não tenho nada a responder sobre essa questão. A não ser dar um testemunho do que representou o Rui Palmeira no tempo que trabalhou nesta Casa, disse recentemente em plenário o peemedebista.