Título: O valor do trabalho decente
Autor: Somavia, Juan
Fonte: O Globo, 28/04/2012, Opinião, p. 7

Manifestações devem acontecer em todo o mundo no próximo 1, de maio. O que há de novo? Na verdade, muito.

Em muitos lugares do mundo a crise econômica golpeia os trabalhadores e suas famílias. E põe em evidência como as políticas macroeconômicas de décadas atrás minaram o valor do trabalho decente.

Esta situação é mais evidente em economias avançadas e, em especial, na Eurozona, onde as políticas para enfrentar os altos níveis da dívida pública estão criando um grande custo social que cedo ou tarde terá que ser pago.

O atual modelo de crescimento econômico considera o trabalho como um custo de produção que deve manter-se baixo para elevar a competitividade e os ganhos. Por outro lado, os trabalhadores são vistos como consumidores para os quais oferecer empréstimos, mais do que oportunidades de participar na riqueza que ajudam a criar.

Esquecemos de que o trabalho é fonte de dignidade pessoal, estabilidade familiar, paz nas comunidades e, sem dúvida alguma, credibilidade na democracia, o que é fundamental para a governabilidade.

Em muitas partes do mundo perdeu-se a noção básica de que o trabalho não é uma mercadoria.

Por isso, este não é um 1, de maio qualquer. Há os que acreditam que é possível sair desta crise com as mesmas receitas do passado. Estão equivocados, não é mais uma crise.

Quando as taxas de desemprego juvenil rondam os 50% em países como Espanha e Grécia, fica claro que estamos no limite desta recessão gerada pela austeridade. Trata-se de políticas que ignoram os valores da justiça e da solidariedade que guiaram a União Europeia e que estão no centro de seus principais tratados. Para pagar a dívida, ignora-se que precisamos de crescimento e emprego. São políticas que estão longe das Convenções da OIT e se esquecem do papel fundamental que o diálogo social pode jogar em tempos de crise.

Precisamos de políticas de consolidação fiscal que sejam socialmente responsáveis.

Na democracia, é mais importante contar com a confiança a longo prazo das pessoas — especialmente dos mais vulneráveis — que ganhar o apoio a curto prazo dos mercados.

Globalmente, a maioria das grandes empresas e o sistema financeiro em geral recuperaram-se da crise, ainda que alguns especialistas considerem o sistema bancário "frágil". Os governos gastaram bilhões para essa recuperação.

Os trabalhadores, ao contrário, não receberam o mesmo tratamento.

Entendemos, então, que neste 1, de maio, em muitos países, as pessoas sintam que alguns bancos são demasiado grandes para quebrar, enquanto que elas são demasiado pequenas para ser levadas em conta.

Que podemos fazer? Devemos mudar o modelo de crescimento da economia global. Sem dúvida, trata-se de um modelo que criou muita riqueza.

Mas esta riqueza concentrou-se em poucas mãos ou não conseguiu o tipo de crescimento inclusivo que se supunha iria gerar.

Necessitamos um tipo de crescimento que beneficie o meio ambiente, promova o bem-estar das pessoas e reduza as desigualdades. Sua medida de êxito deve ser o número de empregos de qualidade que cria e não a porcentagem de crescimento do PIB.

O sistema financeiro deve estar a serviço da economia real em vez de especular com o dinheiro das pessoas. Os bancos devem voltar ao seu papel original, que era o de oferecer empréstimos para que as empresas sustentáveis invistam e criem empregos. As políticas laborais, sociais e ambientais devem ser tão importantes como as políticas macroeconômicas. Este não é o caso atual.

Devemos avançar rumo a uma globalização que responda às expectativas das pessoas. Isso significa, em primeiro lugar, a possibilidade de acesso a um trabalho com remuneração justa e direitos laborais. Em resumo, um trabalho em condições dignas. Isto foi o que, em seu momento, permitiu o surgimento das classes médias em todos os lados.

Agora, a classe média está ameaçada, porque cada vez mais está difícil conseguir um trabalho decente.

Este preocupante cenário diz respeito a todos os países. Nenhuma nação ou região pode bastar-se por si mesma.

Se queremos avançar rumo a uma nova era de justiça social, precisamos cooperação, diálogo e, sobretudo, liderança.

Uma liderança alimentada por valores humanos. E, entre esses valores, é central a dignidade do trabalho.

JUAN SOMAVIA JUAN SOMAVIA é diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT).