Título: Para analistas venda poderá salvar obras
Autor: Uribe, Gustavo; Sorima Neto, João
Fonte: O Globo, 10/05/2012, O País, p. 10
SÃO PAULO. A confirmação da J&F Holding de que irá assumir a gestão da Delta Construções não irá blindar a construtora de investigações nos contratos com o governo federal, sobretudo em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A avaliação é feita por analistas econômicos entrevistados pelo GLOBO, segundo os quais a mudança do corpo administrativo da construtora pode, por outro lado, ajudar a empreiteira a cumprir os contratos assinados e evitar a paralisação de obras.
O diagnóstico é de que a maneira como a construtora provavelmente será comprada pela holding é comum no ramo empresarial, exceto pelo fato de se tratar de uma empresa sob alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional. Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), os papéis ON da JBS (JBSS3) - principal empresa do grupo - fecharam em queda de 1,12%, a R$ 7,08. Na semana, o papel acumula desvalorização de 4,97% e, no mês, a queda é de 5,47%. Na terça-feira, quando circulou a informação de que a J&F compraria a Delta Construções, os papéis da empresa já haviam recuado 4,53%.
O advogado Pedro Dutra, especialista em Direito econômico, não acredita que a venda da Delta trará mudanças no ramo da construção civil.
- Essa é uma operação que se faz rotineiramente, e a diferença é que envolve a Delta, investigada por suspeitas de irregularidades. Ela pode ser positiva para salvar a empreiteira e garantir empregos, mas não vai inibir as investigações que estão sendo feitas pelos órgãos de controle do governo federal - afirmou.
O professor de MBA Executivo da BBS Business School Evódio Kaltenecker avalia que a troca na gestão da Delta pode mitigar o risco dos contratos com o governo federal não serem cumpridos. O analista observa que a mudança na gestão é uma forma de diminuir o impacto na construtora das investigações na CPI.
- Do ponto de vista do governo federal, há uma preocupação com os contratos com a Delta, sobretudo em relação ao PAC. A troca da diretoria poderá mitigar o risco dos contratos não darem certo e, de certa forma, garantir a sua execução. Mas as investigações podem apontar novas irregularidades e, se vier um monstro, a empresa sofrerá as consequências - avaliou.
O professor da Fundação Getulio Vargas, Arthur Barrionuevo, especialista em concorrência e regulação, acha que a mudança na direção da Delta pode ser uma forma de garantir o cumprimento dos atuais contratos.
- Eu acho, contudo, que os eventuais problemas do passados continuarão a existir. Eu não sei dizer se isso é suficiente para salvar a empresa, não.