Título: Defesa de bicheiro estava na sessão
Autor: Maltchik, Roberto
Fonte: O Globo, 11/05/2012, O País, p. 13

Integrantes da CPMI se queixaram de que não foram avisados

O depoimento secreto do delegado da Polícia Federal Matheus Mela Rodrigues, responsável pela Operação Monte Carlo, foi interrompido no início da tarde de ontem depois que senadores notaram a presença dos advogados do contraventor Carlinhos Cachoeira, do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) e do ex-diretor da Delta no Centro-Oeste Cláudio Abreu. A presença deles havia sido autorizada pelo presidente da CPMI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), que, no entanto, não avisou ao plenário da comissão.

O esquecimento causou irritação em alguns senadores, que o acusaram de desrespeitar a CPMI. Para o relator, deputado Odair Cunha (PT-MG), os advogados têm direito constitucional de estarem presentes nas sessões, mesmo que secretas. O presidente depois se desculpou .

O primeiro a dar o alarme de que a defesa dos acusados participava da sessão secreta foi o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), adversário político de Vital do Rêgo. Ele deixou o plenário da comissão para avisar os jornalistas:

- O presidente decidiu, de forma monocrática, autorizar a presença dos advogados. Mesmo que possa agir dessa forma, ele deveria ter comunicado os demais membros da CPMI - criticou: - Essa comissão tem reuniões secretas e presenças secretas. O relator também tinha conhecimento. Se os outros membros da CPMI soubessem que os advogados estavam presentes, poderiam ter alterado a forma de fazer as perguntas.

Vital rebateu asperamente.

- É uma reclamação extemporânea, fora de propósito. Antes de tomar qualquer providência, consultei a equipe técnica. Para garantir a ampla defesa, o estatuto da OAB e para garantir recentes decisões de outras CPIs e do Supremo, é imprescindível a presença dos advogados - disse. - A comunicação de que os advogados estavam solicitando sua presença está na comissão desde o dia 8. Então, é desinformado quem noticia de forma vexatória na imprensa que não foi informado com antecedência.

Outra que se mostrou indignada com a presença foi a senadora Kátia Abreu (PSD-TO), autora do requerimento para tornar secretas as sessões que ouviriam os delegados da PF. Ela afirmou que o objetivo de fechar a sessão ao público era justamente para que os policiais pudessem falar mais abertamente sobre as investigações, que embasariam os questionamentos dos parlamentares quando Cachoeira, Demóstenes e Abreu vierem depor:

- Fui surpreendida com a decisão do presidente e estou indignada. A justificativa da sessão secreta era não entregar o ouro ao bandido. Foi uma atitude que não deveria ter acontecido.

O relator da CPMI, porém, minimizou a confusão e disse que a Constituição garante o direito dos advogados de participarem das sessões:

- Não teria necessidade nem de o presidente informar. Ele não cometeu ilegalidade. O segredo de Justiça não impede que advogados tenham acesso aos autos.

O senador Pedro Taques (PDT-MT) concordou:

- Entendo que não houve má-fé do presidente.