Título: Briga entre governo e bancos por redução de juros é a quarta onda
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Fonte: O Globo, 13/05/2012, Economia, p. 28

Para analistas, queda de braço ganha corpo durante os períodos eleitorais

O atual embate entre o governo e os bancos privados foi batizado por dirigentes do setor financeiro de "quarta onda", levando em conta as relações dessas instituições com o setor público nos últimos dez anos. Pelo ineditismo - e com a presidente da República na linha de frente - a onda atual é considerada a mais arrebatadora, embora ao longo do tempo as relações entre o governo e os bancos privados tenham gerado intensos debates, quase sempre vinculados a períodos pré-eleitorais.

A primeira onda ocorreu em 2002, quando o então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva citou o tema em sua campanha e criou um grupo de trabalho para estudar ações para diminuir o

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(diferença entre os custos de captação dos bancos e o que cobram de juros nos empréstimos a empresas e pessoas físicas).

Para analista, Dilma elevou o tom, mas bancos resistirão

Para os banqueiros, a segunda onda começou em maio de 2003, quando o então vice-presidente José Alencar passou a se queixar dos juros altos. Sempre que podia, Alencar alfinetava o sistema financeiro e o próprio Banco Central (BC), devido à elevada taxa de juros. O discurso de Alencar foi encampado pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

No fim de 2006 - na terceira onda - o ministro da Fazenda, Guido Mantega, lançou um pacote para reduzir o

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que não surtiu efeito e foi tachado de "manobra diversionista" pelo economista-chefe da Febraban à época, Roberto Troster, que acabou deixando a entidade por causa de sua declaração. Troster mantém seu ponto de vista em relação às tentativas do governo de baixar o

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, que no Brasil supera 30%, o que põe o país na 137ª posição do ranking mundial.

- Essa briga da presidente Dilma com os bancos é inédita, mas ela não conseguirá baixar o

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, porque os bancos não têm margem para reduzir. É mais uma onda que passará sem que os problemas estruturais do sistema sejam resolvidos - disse Troster. - Esse embate ocorre sempre em ano de eleição.

Em 2006, após lançar a MP que autorizava a transferência do crédito consignado entre bancos, o governo teve de voltar atrás. Pressionado pelas instituições financeiras, Mantega fez alterações no pacote e anunciou que a portabilidade só iria vigorar para novos contratos. O ministro foi convencido pelos bancos de que as menores instituições seriam prejudicadas.

Em geral, as investidas do governo sobre os bancos não foram bem-sucedidas. Na História atual, o sistema financeiro teve um papel importante no fracasso da política econômica do ex-presidente João Goulart e abriu espaço para o regime militar.

Com a inflação elevada, a dívida externa crescendo em progressão geométrica, pagando US$ 150 milhões de juros por ano, e com os créditos bloqueados no mercado internacional, o então ministro da Fazenda, Carvalho Pinto, assinou uma medida que autorizava o Banco do Brasil, como agente financeiro da União, a emitir letras destinadas a possibilitar a captação no mercado interno de recursos adicionais não inflacionários. A compra desses títulos teria de ser feita por bancos privados que ultrapassassem os limites de crédito.

Esse esquema de bônus compulsório azedou ainda mais as relações entre Jango e os bancos privados. A meta do plano era financiar projetos desenvolvimentistas e controlar investimentos por meio do sistema monetário.

Sob os efeitos danosos das crises russa e asiática, na década de 90, o governo Fernando Henrique Cardoso criou um programa para ajudar o setor financeiro, o Proer. Além disso, grandes instituições foram liquidadas, como os bancos Nacional, Bamerindus, Noroeste e Econômico.

Para Moisés Marques, professor do curso da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), os governos costumam "jogar para a plateia" nessas situações. Pois há uma limitação na forma de atuar, porque parte da dívida pública está nas mãos dos bancos privados.

Já o historiador Amado Cervo disse que a "quarta onda" é algo novo, importante e se insere na estratégia de combate à inflação. Ele comparou Lula a Dilma nesse tipo de enfrentamento, destacando que a presidente da República é mais pragmática:

- É uma onda menos política. É técnica, econômica. Dilma é calculista, fria, matemática e racional. Lula era bastante intuitivo e emotivo.