Título: Um País desagregado
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 13/05/2012, O Mundo, p. 34
Problema com ladrão ou com um imigrante? Não chame a polícia: ligue para Alexandros Plomaritis. No bairro popular de Aghios Pandeleimon, no centro de Atenas, esse grego diz que "turcos são vagabundos", que imigrantes são como "pestes". Considera "traidores" os que abriram as fronteiras da Europa, diz que tem de 100 a 200 homens à disposição para intervir quando necessário. Ali, a lei é ele. Sentado no café Hobby, ponto de encontro dos extremistas, Plomaritis, que representa o Aurora Dourada - o primeiro partido neonazista na Grécia - é interrompido por um de seus homens, que passa de moto, para e pergunta:
- Eles (a jornalista e o intérprete) são bons? Se não forem& vão ver só!
Essa é a Atenas de maio de 2012. A Grécia que fez uma das maiores contribuições ao mundo moderno, ao inventar a
demokratia
no ano 507 antes de Cristo, mergulhou nos extremos - de direita e de esquerda. Numa semana em que o tempo nublado em Atenas funcionou como uma metáfora da situação nacional, o país ficou sem governo, paralisado por uma crise econômica profunda, que provocou também uma crise política e moral. E este é apenas mais um capítulo de uma verdadeira tragédia grega, que começou com uma nação que gastou mais do que tinha e foi castigada pelos mercados por ter mentido sobre a real situação de suas contas.
Para tentar tirar a Grécia do buraco - e evitar que todos os 17 países da zona do euro acabassem arrastados pelos gregos - a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional impuseram reformas e condições duras, em troca de dinheiro e redução de dívida. Mas, no último pacote de fevereiro, que exigia a demissão de 15 mil funcionários públicos, os gregos nas ruas viraram a mesa. O governo de coalizão caiu. Uma eleição parlamentar foi convocada para o último dia 6. Resultado: os dois maiores partidos políticos - o conservador Nova Democracia e o socialista Pasok - foram massacrados. O primeiro obteve apenas 18,9% de votos, e o segundo, meros 13,2%. Triunfaram os extremos. Um partido radical de esquerda que rejeita todos os acordos com a União Europeia e os credores - o Syriza - se tornou a segunda força política, com 16,8% dos votos. Já a extrema-direita neonazista do Aurora Dourada conquistou quase 7%.
Com os mercados e a Europa agora ameaçando deixar o país afundar sozinho, caso não cumpra as exigências, a Grécia virou um navio à deriva: em uma semana, três tentativas de formar um governo de coalizão fracassaram, deixando o país na rota quase segura de uma nova eleição dentro de um mês. E enquanto a classe política se desentende sobre o que fazer - ficar ou sair do euro, seguir ou não os acordos com a Europa - gregos que tinham pouco e agora perderam tudo, como a cozinheira Mirsini Demertzi, se radicalizam.
- Prefiro a ditadura! Democracia querem os grandes, para proveito próprio. A Grécia vai falir - vaticina Mirsini, 44 anos, desempregada desde 2008.
Palcos de extermínio votam em neonazistas
A cozinheira, que votou no Syriza, estava no pátio de uma instituição pública no centro de Atenas, à procura de um filho de 28 anos viciado em drogas: ali, distribui-se todos os dias comida aos pobres. E, com a crise, a fila da comida só aumenta, para o desespero de Georges Apostolopoulos, que comanda a instituição.
- Estou com mais medo do futuro a cada dia. Se a Grécia sair da zona do euro, vai ser destruída. Não quero nem pensar nisso - atemoriza-se.
Um frequentador da fila da comida grátis, Argyros Alexandros, 74 anos, não tem mais vergonha de comer, nem de mostrar a sopa de galinha. Há quatro anos, ele era dono de duas lojas de roupas italianas em Atenas: tinha dois carros e um casamento. Hoje só sobrou o cachorro.
- Eu trocava de carro a cada dois anos. Eu ia duas vezes por mês a Milão. Eu tinha seis empregados. Eu tinha um casamento. E agora?! Ainda bem que tenho um cachorro... São melhores que os seres humanos - resigna-se.
Não longe dali, no escritório de um advogado, um homem de 65 anos, com os braços musculosos de um jovem de 30, descreve o que ele acha ser a Grécia ideal. Trata-se de Yannis Vouldis, um dos 21 extremistas do partido neonazista Aurora Dourada eleitos no dia 6 de maio para entrar, pela primeira vez na história grega, no Parlamento. Este veterinário aposentado defende a instalação de minas nas fronteiras da Grécia para impedir a entrada de imigrantes.
- Não é um problema difícil de resolver: fechamos as fronteiras. E os que estiverem dentro da Grécia serão obrigados a partir. Quando se tem de 300 a 500 clandestinos entrando por dia no país, tem de fechar.
Ele também sugere que os imigrantes que estão dentro da Grécia sejam levados para ilhas desertas do país, até a expulsão. Não vai dar a impressão à Europa que são campos de concentração nazistas? Vouldis dá de ombros e diz:
- A gente está se lixando para a Europa. A Europa nos transformou em lixo.
Um discurso que faz arrepiar Stelios Perakis, advogado que representou as famílias dos gregos exterminados pela ocupação nazista, de 1941 a 1944, numa ação fracassada de pedido de reparação à Alemanha no Tribunal Internacional de Justiça de Haia. Justo em duas cidades onde foram perpetrados massacres pelos nazistas - Distomo (quase 300 mortos) e Kalavrita (mais de 1.200) - o Aurora Dourada obteve agora o seu maior sucesso nas urnas.
- Em Kalavrita, os nazistas exterminaram toda a população masculina. Em Distomo, queimaram toda a cidade e mataram todo mundo. Como é concebível que um partido pró-nazista tenha tantos votos? - questiona.
Perakis prefere crer que quem votou nos neonazistas "são jovens sem consciência do que fizeram".
A crise na Grécia já não poupa ninguém. Nem os que imaginavam estar com a vida ganha, como Christina Goretta. Esta arquiteta de 54 anos tem escritório próprio, mas os clientes sumiram - alguns sem pagar.
- Um cliente para quem eu ligava para cobrar pelo trabalho me disse: 'Não me ligue mais porque você está incomodando!'. Eu não esperava ser afetada por algo assim aos 50 anos - conta.
George Dilaveris, 58 anos, engenheiro civil do metrô de Atenas, se considera um sortudo por ainda estar empregado. Os projetos públicos - entre eles uma das maiores obras, uma autoestrada de 210 quilômetros - pararam.
- A maioria dos engenheiros está à beira do desemprego. E não apenas os engenheiros, mas também os fornecedores da construção.
A crise neste canto da Europa é tão devastadora - virando de cabeça para baixo um número cada vez maior de vidas - que faz vítimas inusitadas. Como Kyriakos Katsadoros, psiquiatra da organização Klimaka, que iniciou um trabalho pioneiro sobre as consequências da exclusão social na saúde mental dos gregos. Kyriakos diz que, há dez anos, a Grécia ocupava o último lugar no continente em matéria de suicídios. Hoje é a primeira, com um dos maiores percentuais de aumento desse tipo de mortes no mundo.
- Os suicídios dobraram após o início da crise. Dois por dia, no mínimo, na maioria homens entre 35 e 65 anos, isto é, na idade ativa de trabalho.
O psiquiatra conta que em 2007, quando estourou a crise, a organização recebia de 5 a 15 telefonemas por dia de pessoas querendo se suicidar. Hoje são de 40 a 100. Ele mesmo admite: