Título: Bancos espanhóis sob pressão
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Fonte: O Globo, 12/05/2012, Economia, p. 31
Dois dias após a nacionalização do quarto maior banco do país, o Bankia, o governo espanhol determinou ontem que os bancos do país elevem suas provisões para perdas com empréstimos imobiliários em 30 bilhões. Além disso, anunciou que vai contratar dois auditores para avaliar esses ativos, em mais uma tentativa de sanear o setor. Os bancos terão de elevar as provisões para empréstimos imobiliários ainda operantes (considerados "bons") de 7% para 30% do total. Segundo o ministro da Economia, Luis de Guindos, o governo dará ajuda para aqueles que não conseguirem cumprir a determinação. Ele estima que a injeção de recursos fique abaixo de 15 bilhões e assegurou que isso não vai elevar o déficit fiscal. Na média, os bancos espanhóis têm 24,7% de créditos imobiliários de recebimento duvidoso.
Os mercados financeiros reagiram negativamente ao anúncio. Enquanto a maioria das bolsas europeias fecharam ontem em alta, puxadas pelo forte aumento da confiança do consumidor americano, a Bolsa de Madri chegou a cair 3%, mas encerrou com queda de 0,7%, diante das incertezas quanto à saúde financeira do setor bancário espanhol:
- Se a Espanha socorre seus bancos, quem vai socorrer a Espanha? - indagou um operador baseado em Londres, e que preferiu não ser identificado.
- Este não é o saneamento definitivo pelo qual o mercado vem clamando - disse, por sua vez, Nicholas Spiro, da Spiro Strategy. - A reestruturação do sistema bancário espanhol é um alvo móvel: quanto mais a economia se retrai, maior é a incerteza sobre o tamanho da necessidade provisionamento do setor.
O governo também vai obrigar os bancos espanhóis a gerenciarem seus ativos imobiliários executados por firmas independentes, para que possam ser vendidos, afirmou Guindos.
- É um passo na direção certa e eles avançaram bem na questão imobiliária - disse Tobias Blattner, economista da Daiwa Capital Markets, em Londres. - Apesar disso, a preocupação continua sendo o setor imobiliário e, para recuperar a confiança, eles precisam estender essas medidas aos empréstimos de consumidores e empresas, por causa da economia em recessão e o aumento do desemprego.
FMI: medidas dão transparência
A mais recente medida para sanear o sistema bancário espanhol, após algumas tentativas em 2010, 2011 e em fevereiro deste ano, faz parte da estratégia do presidente do Governo da Espanha, Mariano Rajoy, para eliminar as dúvidas do mercado sobre a real situação dos bancos. Essas incertezas vêm pressionando o ágio que os investidores cobram para adquirir papéis da dívida soberana espanhola. Ontem, o ágio sobre o bônus de dez anos do país subiu 6,05%, logo após o anúncio das medidas. Mais tarde, recuou para 6%.
As ações de bancos espanhóis inicialmente recuaram com força, mas no fim do pregão recuperam um pouco o terreno. Os papéis do Santander, maior banco da Espanha, caíram 1%, para 4,87, depois de terem recuado inicialmente 5,5%. As ações do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria fechou com queda de 1,3%, a 5,24, recuperando uma perda inicial de 6%. O Banco Popular Español chegou a perder 6,4%, antes de encerrar com recuo de 1,5%, a 2,13. Um porta-voz do banco assegurou que a instituição não vai pedir ajuda ao Estado para elevar suas provisões. Já o CaixaBank caiu 1,1%, após uma desvalorização inicial de 3,6%.
O objetivo do governo conservador espanhol é elevar a confiança dos mercados numa sistema financeiro afetado por 184 bilhões em papéis que o Banco de España, o banco central do país, classifica como "problemáticos".
"Essas medidas oferecem uma resposta efetiva à vulnerabilidade do sistema bancário, ao mesmo tempo que oferecem maior transparência e diferenciam as necessidades das variadas instituições financeiras", afirmou ontem a diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, em um comunicado.
De acordo com o jornal "El País", o percentual de créditos duvidosos ligados ao setor imobiliário dos bancos espanhóis é de quase 25% da carteira dessas instituições. Guindos acrescentou que os bancos terão que elevar suas provisões para imóveis ainda não concluídos para 29%, e 14%, para o imóveis prontos. Segundo o ministro, as novas regras elevarão a cobertura dos ativos imobiliários para 45%.
Bancos não pedirão ajuda, diz entidade
Guindos disse ainda que os bancos terão um mês desde ontem para definirem como vão acatar as novas exigências de provisão, que se somam aos 53,8 bilhões de encargos e exigências de capital determinados pelo governo na última tentativa de saneamento do setor em fevereiro.
O porta-voz do Banco Sabadell afirmou que o banco tem condições de elevar as provisões este ano e apresentar lucro. Já a Associação de Bancos da Espanha anunciou que seus associados não vão pedir ajuda ao governo. A ajuda estatal está disponível por meio do programa de resgate de bancos, conhecido pela sigla Frog, que prevê compra de ações ou bônus conversíveis contingenciados dos bancos que tiverem em dificuldade para cumprir as exigências, disse Guindos.
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