Título: Dívida espanhola atinge patamar de risco que beira intervenção
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Fonte: O Globo, 17/05/2012, Economia, p. 24
Apesar dos cortes e ajustes feitos pelo governo, continua a pressão sobre a dívida da Espanha. A cada dia, a situação no país se agrava. O prêmio de risco espanhol, a diferença entre os bônus oferecidos pelo país e pela Alemanha, superou uma barreira jamais alcançada: os 500 pontos básicos. Nesse resultado, acumulam-se problemas internos e externos. Por um lado, a Grécia se mostra um país imprevisível, por outro, o risco associado à dívida espanhola está em um patamar similar ao que levou à intervenção em outros sócios da União Europeia, como Grécia, Portugal e Irlanda. O Banco Central Europeu (BCE), único organismo com força suficiente para reverter esse quadro, parece não se encorajar a comprar dívida de forma massiva, como fez no ano passado.
Após 48 horas de pânico nos mercados, o presidente do Governo da Espanha, Mariano Rajoy comentou o cenário econômico do país:
- A situação é muito complicada, o prêmio de risco subiu muitíssimo, o que significa que é muito difícil se financiar - afirmou o líder, que negou, no entanto, a necessidade de ajuda europeia ao país. - Não se falou sobre nada disso e eu falo com os principais dirigentes europeus quase toda semana. A Espanha está fazendo o que deve fazer.
Não surpreende que o ministro da Economia, Luis de Guindos, reunido ontem em Londres com investidores para explicar a última reforma bancária, tenha seguido a mesma linha de discurso do governo, também rejeitando que a Espanha necessitasse do fundo de resgate europeu para recapitalizar seus bancos.
Carlos Solchaga, que conduziu a política econômica espanhola de 1985 a 1993, no entanto, pôs ontem lenha na fogueira ao assegurar que o país está em "risco relativo", porque as outras intervenções europeias foram decididas quando o prêmio de risco superou os 500 pontos. José Luiz Martínez, analista do Citigroup, por sua vez, considera que o risco de não pagamento da dívida por um país não depende tanto do nível de seu prêmio de risco ou da rentabilidade de seus títulos, mas da velocidade em que eles se movimentam.
O prêmio de risco chegou aos 507 pontos e fechou aos 482, mas o rendimento dos títulos espanhóis - o que mais afeta os cofres públicos - já conheceu patamares mais críticos. Um título de dez anos estava sendo negociado no mercado secundário a uma taxa de 6,3%, enquanto em novembro do ano passado alcançou 6,7%. Esse é um dos motivos para uma relativa alegria em meio à depressão generalizada. Os rendimentos dos títulos da dívida espanhola com outros prazos também estavam distantes dos níveis astronômicos que alcançaram há seis meses.
Frente às desavenças entre os políticos europeus e à catastrófica situação grega, Mario Draghi, presidente do BCE, parece não ter se decidido por comprar dívida no mercado secundário para aliviar as tensões.
- O contágio provém da Grécia, por isso não há nada que o governo espanhol possa fazer - destacou Emilio Ontiveros, presidente da assessoria Analistas Financeiros Internacionais (AFI).
O Ibex 35, principal índice da Bolsa Espanhola, que começou o dia com uma queda de 1,1%, arrastado pelos valores bancários, chegou a ceder 2,45% e fechou em queda de 1,33%, aos 6.611,5 pontos. Os valores do setor bancário continuam negativos. Bankia prossegue seu drama, após ter sido nacionalizado na semana passada: perdeu 11,12%.
Diante da alta do risco, os "indignados" do movimento 15-M, reuniram-se de novo na Porta do Sol, em Madri. "Já havíamos avisado que voltaríamos se o índice chegasse a 500 pontos. Quando ele sobe, aumenta nossa raiva", dizia texto no site do grupo.
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