Título: Sustentabilidade corporativa: desafios
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 20/05/2012, Economia, p. 42
A palavra sustentabilidade, embora largamente utilizada, parece ainda não ter sido plenamente compreendida pelo mundo corporativo. Às vésperas da Rio+20, é oportuno pontuar conceitos, mapear desafios e apontar oportunidades.
Sustentabilidade corporativa nada mais é do que a incorporação de critérios socioambientais no processo de tomada de decisões, conferindo a eles peso semelhante ao de variáveis econômico-financeiras. Em outras palavras, significa dizer que decisões de investimentos, compra e venda de ativos, mudanças no processo produtivo ou desenvolvimento de novos produtos levarão em conta aspectos como emissão de gases de efeito estufa, existência de passivos ambientais, respeito aos direitos humanos na cadeia produtiva ou pagamento pelo uso da água, dentre outros.
Essa agenda vai além da ação social ou do cumprimento dos requisitos ambientais legais, pois interfere na forma de se tomar decisão em uma empresa. Parece óbvio, mas não tem sido assim, até pelo fato de não haver mecanismos de precificação para todas as variáveis citadas. Ou seja, não há sistemas de preços que levem sistematicamente em conta as chamadas externalidades, positivas ou negativas, geradas pelos impactos das atividades produtivas.
Neste contexto, como vencer o desafio de incorporar critérios de sustentabilidade sem a necessária sustentação de variáveis econômicas? Esse tem sido um dos dilemas enfrentados pelas empresas hoje, uma vez que continuam tendo que pagar dividendos para seus acionistas, ao mesmo tempo em que, cada vez mais, devem prestar contas a uma ampla gama de partes interessadas, com base nos requisitos socioambientais. Não basta a empresa distribuir dividendos e pagar salários e impostos. Também tem que ser aceita pela comunidade que a cerca, prevenir e compensar os impactos ambientais gerados e compartilhar os benefícios de sua operação com a sociedade.
As empresas líderes procuram vencer o desafio assumindo hipóteses para preço de carbono, água, serviços ecossistêmicos, mesmo sabendo que isso pode configurar um risco. Por que fazem isso? Porque acreditam que seu futuro passa por uma atuação responsável frente aos recursos ambientais e sociais que usam, porque sofrem pressões de consumidores e financiadores ou porque querem, sim, apostar em um diferencial competitivo por meio de atributos socioambientais.
Este é o caso de empresas que encantam seus consumidores por serem transparentes, por exemplo, quanto ao uso da água, à destinação adequada de resíduos, à escolha dos fornecedores ou ainda à utilização de produtos tóxicos. São empresas inovadoras na atitude.
Seguindo este viés, há também as organizações que apostam em inovações no campo dos processos produtivos (substituição de combustível fóssil por energia renovável, por exemplo) e no desenvolvimento de novos produtos e serviços (veículos elétricos e redes inteligentes de energia). Tais iniciativas configuram um largo campo de oportunidades de crescimento e diversificação para as nossas empresas. Investimentos em pesquisa e desenvolvimento são chave no processo contínuo de inovação e diferenciação, bem como a aproximação da academia com o mundo corporativo.
É exatamente por representar um mar de oportunidades e desafios que a agenda da sustentabilidade é tão entusiasmante, mas ao mesmo tempo complexa. A Rio+20 terá o grande desafio de consolidar compromissos de diversas partes em torno dos temas que tangem à sustentabilidade global. Caberá às empresas o papel de aplicar práticas que busquem a transição para uma nova economia inovadora, de baixo carbono e socialmente inclusiva. Espera-se, assim, que os bons ventos que rondam o Rio sejam inspiradores para as empresas brasileiras ousarem em se diferenciar na agenda do desenvolvimento sustentável.
Clarissa Lins é diretora-executiva da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável