Título: UE se prepara para saída da Grécia do euro
Autor: Lenoir, François
Fonte: O Globo, 24/05/2012, Economia, p. 28
BRUXELAS. O jantar informal de líderes da União Europeia (UE) ontem em Bruxelas evidenciou as divergências entre os países do bloco em relação ao projeto europeu e à crise que assola a zona do euro. A reunião colocou em lados opostos a primeira e a segunda economias do bloco, Alemanha e França, com Paris apresentando propostas de crescimento e Berlim defendo a austeridade. Mas, antes mesmo de a entrada ser servida, o jantar começou sob o impacto da notícia de um acordo emergencial, mediado numa teleconferência pelo grupo de trabalho do Eurogrupo (que reúne os ministros de Finanças da zona do euro), que propõe que cada país deverá preparar um plano de contingência individual para a saída da Grécia do bloco. A notícia foi negada por autoridades gregas, mas confirmada por três fontes do Eurogrupo.
- A Equipe de Trabalho do Eurogrupo concordou que cada país da zona do euro deve preparar um plano de contingência, individualmente, para as consequências potenciais de uma saída da Grécia do euro - disse uma autoridade da zona do euro familiar com o que foi discutido na teleconferência.
Além da confirmação de três autoridades do Eurogrupo, a agência de notícias Reuters teve acesso ao rascunho de um memorando de um Estado-membro da UE, detalhando alguns dos elementos que os países da zona do euro deveriam considerar. O documento apontava os custos individuais para os países da zona do euro no caso da saída da Grécia e sugeria aos líderes europeus buscar um "divórcio amigável". O documento dizia ainda que se a Grécia sair do bloco, poderia receber ajuda da UE e do Fundo Monetário Internacional (FMI) de até 50 bilhões.
No jantar, a França e seu novo presidente, François Hollande, cumpriu o roteiro previsto e colocou sobre a mesa um apetitoso coquetel de medidas pró-crescimento, que, entre outras coisas, prevê a taxação de transações financeiras, um novo papel para o Banco Central Europeu (BCE), a recapitalização do sistema financeiro com recursos do fundo de resgate europeu e a polêmica proposta dos eurobônus. A aposta no crescimento é apoiada por alguns dos países mais vulneráveis à crise, como Espanha e Itália. Mas, a chanceler alemã, Angela Merkel, respondeu com uma palavra: "não". Para a Alemanha, o caminho da recuperação passa irremediavelmente por medidas de austeridade e cortes de gastos.
Para muitos analistas, no entanto, o encontro de ontem não tinha a finalidade de aprovar propostas, apesar das tensões dos mercados, mas sim de servir de cenário para que os líderes expusessem suas ideias, antes da reunião formal marcada para o fim de junho. Até lá, preveem esses analistas, há uma boa chance de a chanceler alemã se encontrar isolada em sua posição.
Mercado não espera
um plano concreto
A peculiar armadilha que a Europa armou para si mesma aparece tanto na economia - com recessão, desemprego em níveis de depressão e turbulência nos mercados - como na política - com o fortalecimento de grupos extremistas, à esquerda e à direita, e o esfacelamento do euro. Por isso, esses analistas avaliam que a função do jantar de ontem foi a de explorar os limites sem tabus, e não aprovar medidas.
Para eles, a reação de Merkel contra o eurobônus é uma resposta à crescente pressão por medidas de crescimento, expressa não apenas pela França, agora sob administração socialista, e que parece disposta a arrastar os demais sócios europeus nesse caminho. A medida é defendida igualmente por G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo), G-8 (grupo dos sete países mais industrializados e a Rússia), Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômica (OCDE) e o Fundo Monetário Internacional. O próprio presidente americano, Barack Obama, apoiou as sugestões de Hollande, na semana passada, durante a cúpula do G-8.
Com o impasse servido antes da sobremesa, os agentes financeiros e economistas não esperam um plano concreto, a ponto de recuperar o otimismo dos mercados nos próximos dias. Enquanto isso, o fantasma de uma potencial saída da Grécia do bloco e suas consequências inesperadas continuaram dando a tônica da crise e ocupando a preocupação dos investidores.
- O medo dita as regras - avaliou Ronald Simpson, diretor-gerente de Análise Global de Moedas, da Action Economics, em Tampa, Flórida. - Devido à forma como funciona a máquina política europeia, ninguém está esperando que aconteça algo depois que esses personagens se sentem, bebam cerveja e jantem.
BC alemão: saída da Grécia é "administrável"
Um dos temores apontado por analistas, na eventualidade de uma saída da Grécia do bloco, seria o impacto nos bancos europeus, que detêm US$ 1,19 trilhão em títulos de dívida soberana de Espanha, Portugal, Itália e Irlanda. Essas instituições correm o risco de sofrer perdas desestabilizadoras, pois, para esses analistas, os testes de estresse, as provisões de capital e as baixas contábeis de títulos soberanos gregos não são suficientes para garantir a saúde dos bancos europeus se houver uma onda de saque, motivada pelo pânico dos mercados.
Apesar dos dois anos em que essas instituições estiveram se preparando para o pior, os risco de calote e fuga de depósitos permanece real. No entanto, o Budensbank, o banco central alemão, estimou ontem, em seu relatório mensal, que a eventual saída da Grécia seria "administrável" por meio de uma "cautelosa gestão da crise".
"A Grécia está ameaçando não implementar a reforma e as medidas de consolidação que concordara em troca de vultosos programas de resgate", afirma o documento do Bundesbank. As especulações sobre a saída da Grécia da zona do euro cresceram às vésperas de novas eleições, que podem levar ao poder partidos contrários às medidas de austeridade acertadas nos acordos entre o país e a chamada troika: UE, BCE e FMI.
* Com Bloomberg News e agências internacionais