Título: OCDE quer mais ação anticrise do BCE
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Fonte: O Globo, 23/05/2012, Economia, p. 24
Relatório diz que recuperação econômica está ameaçada por crise europeia
O Banco Central Europeu (BCE) deverá adotar uma postura mais agressiva no combate à crise da zona do euro, revelou ontem documento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Com a Grécia mergulhada em crise econômica e incertezas políticas - que podem levar a sua saída do bloco - além de preocupações com o déficit público e os bancos da Espanha, o relatório semestral sobre a economia mundial da OCDE diz que a autoridade monetária da zona do euro não pode se dar ao luxo de descartar a compra de mais títulos soberanos nos mercados secundários.
A OCDE também exorta os bancos centrais dos países-membros da organização a manterem uma política monetária frouxa, capaz de estimular crescimento. No documento, a instituição argumenta que ainda é muito cedo para encerrar as políticas monetárias não convencionais devido ao fraco crescimento, inflação limitada e aperto fiscal generalizado.
- A situação ao longo das últimas semanas mudou drasticamente - disse o economista-chefe da OCDE, Pier Carlo Padoan, à Reuters. - Se houver um risco percebido de movimentação rápida para um equilíbrio ruim, deve-se então agir.
A OCDE alertou ainda que a crise da dívida na zona do euro pode contaminar a frágil recuperação econômica de EUA e Japão, que vêm liderando a reação entre os países desenvolvidos. A organização prevê que o crescimento econômico mundial vai desacelerar a 3,4% este ano, ante 3,6% em 2011. Mas em 2013 deve atingir 4,2%. O relatório aponta ainda que o crescimento entre os 34 países-membros da OCDE vai desacelerar entre 2011 e este ano de 1,8% para 1,6%, e então avançará 2,2% em 2013.
- Vemos uma recuperação lenta do crescimento nos EUA, puxada sobretudo pela demanda privada, certa recuperação do Japão e expansão de moderada a forte entre as nações emergentes - disse Padoan.
Merkel e Hollande discutem hoje eurobônus em Bruxelas
Com relação à Europa, a OCDE prevê que a Espanha não conseguirá cumprir sua meta fiscal e amargará dois anos de recessão, com quedas de 1,6% este ano e 0,8% no ano que vem. A Alemanha, por outro lado, vai crescer 1,2% este ano e 2%, em 2013, puxada pelo consumo interno.
Apesar dos temores renovados sobre contágio da Grécia, o BCE tem se mostrado até agora relutante em desempenhar um papel maior na contenção da crise, uma vez que injetou 1 trilhão em liquidez no sistema bancário, em duas operações de financiamento a longo prazo. O presidente francês, François Hollande, vem liderando os pedidos para o BCE adotar um papel mais ativo, apesar da oposição da Alemanha, onde as preocupações de que mais ação pode desencadear inflação estão profundamente enraizadas.
Os líderes europeus estarão hoje em Bruxelas para uma reunião de cúpula, em que se prevê um embate entre Hollande e a chanceler alemã, Angela Merkel, em torno da adoção de medidas de estímulo, inclusive a criação de eurobônus. A proposta, segundo o jornal "El País" divide os líderes dos 27 países-membros da UE.
Já a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, disse ontem esperar que as eleições gregas resultem em um governo comprometido com o acordo de austeridade acertado com a UE, o FMI e o BCE.