Título: ONU cobra responsabilidade de países
Autor: Fernanda Godoy
Fonte: O Globo, 25/05/2012, Economia, p. 30

NOVA YORK. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, cobrou dos líderes mundiais que assumam sua responsabilidade pelo êxito da Rio+20, apelando para que se coloquem acima dos interesses de países ou grupos. Em conversa com jornalistas ontem, Ban repetiu seu bordão de que a Rio+20 é uma oportunidade que só acontece uma vez a cada geração, mas mostrou os primeiros sinais de exaspero com o ritmo "dolorosamente lento" das negociações. O secretário-geral está jogando o peso político do cargo e seu prestígio pessoal em encontros e conversas telefônicas com líderes, entre eles os presidentes Barack Obama e Dilma Rousseff, para tentar obter avanços na última rodada de negociações na sede da ONU, que começa na terça-feira.

- Este não é um assunto nacional, temas como preservação dos oceanos, mudança climática, são assuntos globais. Todos têm que se colocar acima dos interesses de países ou de grupos específicos. Se eles não ouvirem o apelo das Nações Unidas, eles estarão negligenciando seu papel como líderes globais - afirmou o coreano Ban, conhecido pela sua moderação e pelas maneiras discretas.

Ban passou os últimos dois dias em reuniões com os representantes do G-77 (grupo dos países em desenvolvimento), da China e da União Europeia, Japão e Coreia. No último fim de semana, foi a Chicago conversar com os líderes que participavam da reunião da Otan. O secretário-geral interveio junto aos europeus, apelando para que eles aceitem o novo rascunho, com 80 páginas, do documento a ser votado no Rio. A versão apresentada nesta quarta-feira pelos co-dirigentes da Rio+20, os embaixadores Kim Sook, da Coreia do Sul, e John Ashe, de Antigua, já foi aceita pelo G-77 como base para a negociação da semana que vem.

"O Brasil tem um papel muito importante"

A chefe de gabinete de Ban, Susana Malcorra, que voltou do Rio na segunda-feira, disse que ficou satisfeita com os avanços da organização da conferência, na parte logística, e com esforços do governo para conter a alta de preços de acomodação e serviços. Do ponto de vista político, a auxiliar de Ban foi só elogios:

- O Brasil está muito engajado, exercendo um papel construtivo, e mandando mensagens que indicam não só o seu compromisso, mas que a liderança que o Brasil exerce no mundo será provada durante a conferência - disse Susana Malcorra.

O secretário-geral disse que tem mantido contatos com o chanceler Antonio Patriota e com a presidente Dilma, "caminhando junto com o governo brasileiro" desde junho do ano passado.

- Como governo anfitrião e presidente da conferência, o Brasil tem um papel muito importante - afirmou Ban.

O secretário-geral está apostando na negociação que acontecerá na semana que vem, por avaliar que nos três dias da conferência, de 20 a 22 de junho, o tempo será escasso demais. Ban estará ainda com os principais chefes de governo do mundo na reunião do G-20 no México, de 16 a 19 de junho, de onde seguirá diretamente para o Rio.

- Esta não é a hora de discutir detalhes, não podemos perder de vista o quadro mais amplo. A Rio+20 não é o fim, é apenas o início de muitos processos. Eles precisam ser flexíveis - disse o secretário-geral.

Texto não requer Shakespeare, mas coragem

Para o diplomata, também não se deve perder demasiado tempo com a perfeição ou a beleza da linguagem do documento a ser aprovado na conferência do desenvolvimento sustentável.

- Você pode trazer de volta Shakespeare em nome da beleza, mas esse texto não requer beleza. Liderança política, coragem e comprometimento, isso é o que estamos pedindo - disse.

O secretário-geral lembrou que a Rio+20 não produzirá tratados internacionais com valor legal e que, portanto, não é o caso de "ficar examinando cada vírgula". Ele foi enfático ao afirmar que "80 páginas ainda é demais" para o rascunho zero.

- Meu conselho é cortar, fazer um documento ambicioso, mas prático e que possa ser implementado.

Entre as coisas que dariam essas características ao documento estariam, segundo o secretário-geral, a fixação de metas de desenvolvimento sustentável. Neste caso, ele também defende o corte dos temas em discussão, dos 26 atuais para 8, incluindo energia, água, preservação dos oceanos. O modelo seria o das Metas do Milênio, estabelecidas em 2000, com o objetivo de combater a miséria e a mortalidade infantil, entre outros.

- As metas de desenvolvimento sustentável e as do milênio devem ser integradas de uma forma coerente após 2015 - disse Ban, referindo-se ao ano-limite estabelecido na criação das Metas do Milênio.