Título: Ministros STF não cede a pressões por mensalão
Autor: Celso Pereira, Paulo
Fonte: O Globo, 27/05/2012, O País, p. 11

BRASÍLIA. Três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) afirmaram ontem que a Corte não se submeterá a pressões, seja de quem for, para alterar o rumo do julgamento do mensalão, que ainda depende do relatório do ministro revisor Ricardo Lewandowski para ter a data marcada. Segundo reportagem da revista "Veja" desta semana, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva procurou ministros do STF para tentar adiar o julgamento com o argumento de que "seria mais correto esperar passar as eleições municipais de outubro". Em encontro com Gilmar Mendes, Lula teria dito que possui o controle da CPI do Cachoeira e oferecido proteção ao ministro.

Ao GLOBO, o presidente do STF, ministro Carlos Ayres Brito, disse que o julgamento do mensalão não pode ser postergado:

- A sociedade quer o julgamento, quer que o Supremo julgue. Não estou precipitando nada, ou pré-julgando ninguém.

A reportagem da revista relata um encontro que Gilmar Mendes teve com Lula no escritório do ex-ministro da Defesa Nelson Jobim no dia 26 de abril. Segundo a publicação, durante o encontro Lula lembrou boatos sobre uma suposta viagem que Mendes teria feito com o senador Demóstenes Torres a Berlim, paga pelo contraventor Carlinhos Cachoeira. Segundo a "Veja", no encontro com Lula, Gilmar confirmou ter estado com Demóstenes em Berlim, mas assegurou que todas as despesas foram pagas com dinheiro do próprio bolso. O ministro teria reagido à proposta de proteção: "Vou a Berlim como você vai a São Bernardo. Minha filha mora lá", disse, completando: "Vá fundo na CPI".

Em entrevista à "Veja", Gilmar Mendes manifestou sua contrariedade com o episódio: "Fiquei perplexo com o comportamento e as insinuações despropositadas do presidente Lula", disse.

Ontem, o Blog do Moreno também ouviu Gilmar Mendes e o ex-ministro Nelson Jobim. Mendes confirmou serem verdadeiros todos os fatos narrados pela revista. Jobim negou que Lula tenha pressionado Mendes.

Segundo a "Veja", na semana passada, Gilmar Mendes comunicou a Ayres Britto o teor da conversa que tivera com Lula. Ayres, que havia conversado com o ex-presidente uma semana antes, disse à revista que depois do relato de Mendes acendeu uma "luz amarela", porque Lula perguntara na conversa entre os dois sobre o jurista Celso Antônio Bandeira de Mello - amigo de ambos - e emendou com o convite: "qualquer dia desses a gente toma um vinho".

Ao GLOBO, Ayres Brito sustentou, no entanto, que não viu malícia na fala do ex-presidente e que não tem elementos para acreditar que Lula tivesse intenção de influenciar o STF:

- Prefiro acreditar que o Gilmar fez uma interpretação equivocada disso. Todos nós somos pessoas vacinadas. Somos curtidos nesse tipo de enfrentamento, de insinuação. Isso não influencia a subjetividade do julgador. Por mais que seja política a ambiência do mensalão, o julgamento vai ser técnico, impessoal, objetivo, em cima das provas dos autos - disse. - Meu testemunho é favorável a distinção do Lula. Ele nunca me fez o menor pedido. Já conversei com Celso Antônio. Tomamos café da manhã hoje. Lula nunca tocou nesse assunto com Celso Antônio.