Título: Tropas de Assad fazem massacre na Síria
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Fonte: O Globo, 27/05/2012, O Mundo, p. 44
DAMASCO. Um grande ataque à cidade síria de Houla e às aldeias em seu entorno, na província de Homs, deixou pelo menos 90 mortos, incluindo 32 crianças, informam ativistas e opositores. É um dos episódios mais sangrentos e com o maior número de mortos numa única ofensiva desde que o cessar-fogo entrou em vigor no país, em abril. Mais de 250 observadores enviados pela ONU tentam fiscalizar a situação na Síria, que, no entanto, não dá sinais de melhora.
Monitores da ONU foram enviados à cidade para conferir a situação após o massacre, que atraiu forte condenação da comunidade internacional.
- É o testamento vil de um regime ilegítimo - atacou a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Erin Pelton.
Países articulam
resposta na ONU
Os chanceleres da França e do Reino Unido fizeram pesadas críticas a Assad, e estão articulando uma sessão do Conselho de Segurança nos próximos dias para discutir o ocorrido. "Com estes novos crimes, este regime assassino joga ainda mais a Síria no horror e ameaça a estabilidade regional", disse o chanceler francês, Laurent Fabius, num comunicado. Já o chefe da Liga Árabe, Nabil Elaraby, tachou o massacre de "crime horrendo" e pediu uma ação à ONU.
Segundo ativistas, as forças do presidente sírio, Bashar al-Assad, abriram fogo contra a cidade ainda na sexta-feira, após desavenças com insurgentes de Houla, que concentra vilarejos ao norte da cidade de Homs. Tanques, morteiros e potentes metralhadoras foram usados.
- Mataram famílias inteiras, dos pais aos filhos, mas focaram nas crianças - disse o ativista Abu Yazan.
Segundo outro ativista, muitas das mulheres e crianças assassinadas tinham marcas de esfaqueamento. De acordo com o Observatório Sírio para Direitos Humanos (OSDH), os moradores da região continuam a fugir, com medo de que os ataques recomecem. Pelo menos 100 pessoas ficaram feridas. Segundo o Conselho Nacional Sírio (CNS), grupo que representa a oposição, mais de 110 pessoas foram mortas pelas forças do regime, ao passo que o OSDH contabiliza pelo menos 90 vítimas. Segundo relatos, as aldeias atacadas são de maioria sunita, enquanto os milicianos das forças paramilitares de Assad - os temidos shabiha - são da minoria alauíta, a que pertence o núcleo do regime.
Ativistas relatam que uma família com seis pessoas foi morta ao ter sua casa atingida diretamente por um disparo de morteiro. Um vídeo publicado na internet mostra corpos de dez crianças, cobertos de sangue, colocados lado a lado no chão. Outro vídeo mostra corpos cobertos com gelo para preservá-los até o funeral.
Observadores da ONU que foram à cidade confirmaram o uso de tanques nos ataques. "Quem quer que tenha começado, quem quer que tenha respondido, quem quer que tenha realizado isso deve ser responsabilizado", disse o chefe dos observadores, major-general Robert Mood.
Governo sírio culpa terroristas pelo massacre
Homs é uma das províncias mais atingidas pela repressão do governo Assad desde o início da revolta no país, em março de 2011. O governo sírio culpou terroristas armados pelo massacre em Houla, sem dar mais detalhes. O massacre na cidade e em suas redondezas desfecha um golpe vigoroso no cessar-fogo patrocinado pela ONU e pela Liga Árabe que entrou em vigor no mês passado, mas ainda não é respeitado por nenhum dos dois lados. O relatório de um grupo de observadores da ONU liderado pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, divulgado dias atrás, culpou o governo pela maioria das mortes e violações de direitos humanos ocorridas no país. Anteontem, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, relatara um "pequeno progresso" na implementação do cessar-fogo, mas ontem ele voltou a exigir que o regime sírio detenha "imediatamente o uso de armas pesadas em centros populacionais". O CNS exortou o Conselho de Segurança da ONU a convocar uma sessão de emergência.