Título: Mão iraniana para Assad
Autor:
Fonte: O Globo, 29/05/2012, O Mundo, p. 28
Levantada desde o início do conflito pelo Ocidente, mas jamais confirmada por Teerã, a suspeita de que a ajuda iraniana ao regime de Bashar al-Assad vai além do apoio moral manifestado até agora foi confirmada, ainda que de forma breve, por um dos líderes da unidade de elite da Guarda Revolucionária. Em declarações publicadas no fim de semana pela imprensa estatal, mas logo retiradas do ar, Ismail Ghaani, vice-chefe das Forças Quds, não só deixou clara a lealdade a Damasco, como admitiu a existência de operações iranianas regulares em território sírio.
A publicação da entrevista coincide com a escalada de tensão no conflito sírio, que levou ontem o enviado especial da ONU, Kofi Annan, de volta a Damasco em mais uma tentativa de reavivar seu sistematicamente violado plano de paz. Após o massacre de mais de cem civis no vilarejo de Houla, ontem foi a vez de ativistas denunciarem a morte de outros 41 em Hama - ações que, segundo Ghaani, o Irã ajuda a evitar.
- Se a República Islâmica não estivesse na Síria, os massacres aconteceriam em uma escala muito maior. Antes da nossa presença na Síria, muitas pessoas foram mortas pela oposição, mas com a presença física e não física (do Irã), grandes matanças foram evitadas - diz Ghaani à agência de notícias semioficial Irna.
Depois de elogiar os movimentos populares em Tunísia, Egito e Iêmen, o Irã se viu em uma saia-justa quando a Primavera Árabe chegou à Síria, seu maior aliado na região. Porém, jamais cedeu sobre seu apoio a Assad - ainda que, publicamente, tenha limitado seu suporte a declarações controversas e a posições diplomáticas. O massacre de Houla, por exemplo, foi atribuído ontem pelo governo iraniano à interferência estrangeira e de terroristas.
- Temos certeza de que a interferência estrangeira, de terroristas e medidas suspeitas estão fadadas ao fracasso - disse Ramin Mehmanparast, porta-voz da Chancelaria iraniana. - O ataque foi realizado para gerar caos e instabilidade na Síria, e seus perpetradores estão tentando bloquear o caminho para uma solução pacífica.
Criança teve 62 parentes mortos
Foi em busca de uma solução pacífica para um conflito que já se estende por quase 15 meses que Annan deu algumas de suas declarações mais firmes sobre a violência na Síria ontem. Ele se disse "chocado e horrorizado" com o massacre "repugnante" de Houla e, sem citar nomes, cobrou que os autores sejam responsabilizados.
- As duas partes precisam dar passos firmes para resolver pacificamente essa crise - afirmou.
Na agenda, Annan tem encontros com Assad e líderes da oposição síria programados para hoje, e enfrenta o desafio de convencer as duas partes a aplicar um cessar-fogo que até agora falhou como projeto para contornar as diferenças entre o Ocidente, de um lado, e Rússia, China e Irã do outro.
Um dia depois de apoiar, no Conselho de Segurança, um texto de condenação ao massacre, a Rússia voltou ontem a mostrar resistência a exercer uma pressão maior sobre Assad. O chanceler russo, Serguei Lavrov, recebeu o colega britânico, William Hague, e defendeu uma responsabilidade compartilhada pela violência.
- A culpa deve ser determinada objetivamente. Ninguém está dizendo que o governo não é culpado, e ninguém está dizendo que os militantes armados não são culpados. O mais importante não é quem está no poder na Síria. Para nós, o ponto-chave é o fim da violência - apontou.
À margem das discussões diplomáticas, detalhes de um dos piores massacres do conflito começavam a emergir. Um sobrevivente de 10 anos contou à ONG Human Rights Watch como, após um bombardeio, viu membros de uma milícia pró-Assad invadirem casas em Houla e executarem 62 parentes seus.
O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, condenou o massacre e disse ter sido informado que será criado um grupo, na Síria, para investigá-lo. Ele confirmou que ontem retornaria ao Brasil o jornalista Klester Cavalcanti, da revista "IstoÉ", que havia sido preso na Síria.