Título: Risco da Espanha atinge maior nível desde 1999
Autor: Sorima Neto, João
Fonte: O Globo, 30/05/2012, Economia, p. 28

RIO, MADRI e PARIS. Em meio à desconfiança dos mercados sobre a saúde financeira dos bancos do país, a Espanha viu seu risco (a diferença entre os títulos do Tesouro espanhol e os alemães) atingir 514 pontos centesimais ontem, o maior patamar desde 1999, segundo dados da Bloomberg News. Isso apesar de o custo de financiamento dos títulos espanhóis de dez anos ter recuado de 6,451% para 6,423% - ainda perto dos 7%, nível que levou Irlanda e Portugal a pedir socorro financeiro externo. Para efeito de comparação, o título de dez anos do governo americano estava a 1,745% ontem.

- O sistema financeiro passa por dificuldades por causa dos empréstimos imobiliários, em movimento semelhante ao ocorrido nos Estados Unidos. Mas o que tornou a situação mais grave é que a recessão aumenta a chance de mais inadimplência. A captação de recursos pelos bancos fica mais difícil - diz o economista da Tendências Consultoria Rafael Martello, que ressalta, no entanto, que a Espanha está mais bem posicionada que a Grécia para enfrentar a crise.

Opinião semelhante tem o professor de Economia e Finanças da Fundação Dom Cabral Rodrigo Zeidan:

- Diferentemente do governo grego, o governo espanhol adotou medidas de austeridade fiscal e tem mais credibilidade no mercado.

A crise no setor bancário, porém, vem se agravando. O Bankia, nacionalizado no início deste mês, deve ser recapitalizado por meio da emissão de nova dívida, afirmou ontem à Reuters uma fonte do governo. Suas ações desabaram 16,25%, levando a Bolsa de Madri a fechar em queda de 2,34%.

Mas, segundo o jornal britânico "Financial Times", o Banco Central Europeu (BCE) não teria gostado da estratégia. Citando fontes, o jornal revelou ontem que o BCE teria dito ao governo espanhol ser necessária uma injeção de capital adicional para o Bankia, estimada em 19 bilhões.

Este se tornou alvo de outra polêmica ao vir à tona que o banco pagará uma indenização de 14 milhões a um ex-executivo. Segundo o Bankia, o valor estava previsto no contrato de Aurelio Izquierdo com o Bancaja, uma das sete instituições que se fundiram no Bankia, há dois anos.

Outro fator que pode agravar o temor dos mercados é a saída antecipada do presidente do Banco de España, o BC do país. Miguel Fernández Ordóñez informou ontem ao presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, que deixará o cargo em 10 de junho, não mais em 12 de julho, quando acaba seu mandato.

Ordóñez, oriundo do Partido Socialista, vinha se sentido isolado no governo do Partido Popular. O confronto mais recente foi a proibição de fazer uma audiência pública no Congresso para falar da nacionalização do Bankia, ocorrida no início deste mês. O governo só admitia que ele falasse a portas fechadas.

Ontem ainda foi anunciada uma nova fusão bancária - estratégia defendida pelo governo para sanear o setor. Liberbank, Ibercaja e Caja 3 formarão o sétimo maior banco da Espanha, com ativos de 116 bilhões, 2.500 agências e 12.728 empregados.

O colunista do jornal britânico "Guardian" Phillip Inman, porém, criticou essa estratégia, baseada na ideia de que um banco maior suporta melhor uma grande dívida. "Mas um balanço maior é acompanhado por uma dívida maior", afirmou.

Rajoy já disse que não pedirá socorro externo. Em editorial, o jornal francês "Le Monde" chamou essa postura de "quixotesca" e alertou: "no interesse do euro, Rajoy deveria pegar o telefone e ligar para Bruxelas".

* Com agências internacionais