Título: No silêncio do acusado, o barulho dos acusadores
Autor: Pereira , Paulo Celso
Fonte: O Globo, 01/06/2012, O País, p. 3

Acabou em bate-boca a sessão da CPI do caso Cachoeira para ouvir o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO). O parlamentar preferiu ficar calado, seguindo recomendação do advogado e, entre os integrantes da CPI, a opinião majoritária é que o silêncio piorou a situação do colega, investigado pelo Conselho de Ética e pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A decisão irritou parlamentares, como o deputado Silvio Costa (PTB-PE), que xingou o senador Pedro Taques (PDT-MT) após ríspida discussão. Ontem, a CPI também marcou as datas dos depoimentos dos governadores Marconi Perillo (GO) e Agnelo Queiroz (DF).

Segundo Demóstenes, seu depoimento à CPI era desnecessário pois tudo o que precisava dizer fora dito ao Conselho de Ética do Senado, na última terça-feira, no processo que responde pelo envolvimento com Carlinhos Cachoeira. Da mesma forma que o contraventor, o senador se valeu do preceito constitucional de ficar calado, para não produzir provas contra si.

- Anteontem, prestei depoimento no Conselho de Ética do Senado, cuja pertinência temática é a mesma desta CPMI. Em decorrência disso, por solicitação do meu advogado, endereçamos petição a esta colenda Comissão e comunicamos, até por questão de lealdade, que hoje permaneceríamos calados, conforme faculdade expressamente prevista na Constituição.

Demóstenes disse ainda que repassaria à comissão notas taquigráficas da reunião do Conselho de Ética. O conjunto da fala serviu de estopim para que o deputado Silvio Costa (PTB-PE), exaltado, disparasse os primeiros ataques contra o senador, que a tudo assistiu calado.

- Seu silêncio é a mais perfeita tradução da sua culpa. Esse seu silêncio escreve em letras garrafais: eu, Demóstenes Torres, sou, sim, membro da quadrilha do sr. Cachoeira. Eu, senador Demóstenes Torres, sou, sim, o braço legislativo da quadrilha do sr. Cachoeira. (...) O senhor traiu Goiás, traiu o Brasil. O senhor apelou para Deus. O senhor disse que era carola. Se o céu existir, o senhor não vai para o céu, porque o céu não é lugar de mentiroso, porque o céu não é lugar de gente hipócrita. O senhor está calado, eu sei por quê - atacou Costa.

De imediato, o senador Pedro Taques tentou impedir a continuação dos ataques:

- Um senador não pode tratar um parlamentar, não pode tratar quem quer que seja com indignidade, não me interessa quem seja o investigado. Não cabe a qualquer parlamentar expor outro, mesmo em se tratando de CPI, mesmo em se tratando de um cidadão que está sendo acusado.

A tensão aumentou, e Costa continuou os ataques a Demóstenes e também a Taques, a quem chamou de "metido também a paladino da ética".

- Não me meça, não me meça pela sua régua - respondeu Taques, para um colega já em pé, com o dedo em riste e transtornado:

- Você é um merda! Filho da puta.

A sessão foi encerrada abruptamente pelo presidente Vital do Rêgo (PMDB-PB). Antes, o próprio relator Odair Cunha (PT-MG) deu sua opinião sobre o silêncio de Demóstenes:

- É claro que o silêncio de Vossa Excelência não é o silêncio dos inocentes. Tem a ver com o que estamos investigando - disse Odair, em impressão também de outros senadores, governistas e de oposição.

Diante do constrangimento, o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) afirmou que analisaria a possibilidade de processar Costa por crime de responsabilidade. Porém, o próprio Taques afirmou que essa hipótese não deve prosperar, pois os parlamentares têm imunidade de opinião.

Antes do depoimento de Demóstenes, o presidente da CPI anunciou que Perillo será ouvido dia 12 de junho. Agnelo deverá ir no dia seguinte.