Título: Hora de ação ampla e unida contra Assad
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Fonte: O Globo, 09/06/2012, Opinião, p. 6
Acomprovação por monitores da ONU de um novo massacre em larga escala cometido por forças do ditador Bashar Assad, num pequeno vilarejo sírio, realçou a impotência da comunidade internacional para se pôr de acordo acerca de uma forma de deter o massacre impulsionado por Damasco nos 15 meses de rebelião na Síria.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e seu antecessor, Kofi Annan, estão totalmente empenhados na busca de soluções. Annan, enviado da ONU e da Liga Árabe, chegou a admitir o fracasso de seu plano de paz - a única iniciativa aceita até agora por todos os lados - após o novo massacre. Mas foi convocado pela secretária Hillary Clinton para um encontro em que novas possibilidades seriam examinadas.
A Rússia é o país-chave para quebrar a resistência do regime de Assad. Moscou - junto com a China - tem resistido sistematicamente à imposição de sanções mais duras contra Damasco no Conselho de Segurança da ONU. Washington despachou um diplomata a Moscou para tentar convencer o Kremlin a aumentar a pressão sobre Assad. A Rússia exige que o Ocidente e os países árabes pressionem os que lutam contra o regime sírio a interromperem as ações e negociarem com o governo.
Até agora, os esforços da comunidade internacional têm sido insuficientes. Damasco conta com o apoio do Kremlin e com a resistência da China a endossar ações internacionais em terceiros países. Assad sabe que a opção militar está descartada pelo Ocidente. Para o governo Obama, ela seria impensável num ano eleitoral. A União Europeia está afundada em sua maior crise econômica. Além disso, a ação unilateral carece de legitimidade, e é a pior solução.
Em razão disso, as potências precisam deixar em suspenso seus diferentes interesses no Oriente Médio e se porem de acordo com uma solução multilateral para o impasse na Síria, onde já morreram cerca de 16 mil pessoas em combates envolvendo, de um lado, grupos rebeldes e, de outro, milícias e forças do regime de Assad - estas bombardeiam com tanques e artilharia a população civil de cidades e povoados inteiros.
Nesse contexto, é digna de apreciação a proposta de Kofi Annan para formação de um grupo para apoiar seu plano de paz, que incluiria os membros permanentes do Conselho de Segurança - EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e França - e outros atores importantes como Turquia, Arábia Saudita, Qatar e Irã. Os EUA e a França discordam da inclusão do Irã - Washington considera-o parte do problema, não da solução. Mas, em face do que ocorre na Síria, não parece ser boa ideia excluir quem quer que seja.
Referindo-se à ação da minoria alawita, de Assad, contra a maioria sunita da população, o acadêmico Fawaz Gerges, professor de política do Oriente Médio na London School of Economics, tem razão quando afirmou à agência Reuters: "A Síria de hoje me lembra o Líbano de 1975. Os massacres jogam gasolina no fogo sectário e, se eles continuarem, o país cairá na luta sectária que quase destruiu o Líbano." O que não pode acontecer.