Título: PSB namora tucanos
Autor: Rothenburg, Denise
Fonte: Correio Braziliense, 17/09/2009, Política, p. 4
O PSB não vê a hora de trocar de lugar com o PT. E, como os socialistas não têm como tirar as celebridades do PT paulista, vai pescar no PSDB, reforçando a sua base para conquistar espaço de tucanos e petistas
Chama a atenção nos bastidores da política os lances daqueles que desejam concorrer às eleições de 2010. Daqui até 2 de outubro, uma sexta-feira, último dia para quem quer ser candidato mudar de partido, o barulho nas coxias será intenso.
Ontem foi o começo das mudanças. No primeiro plano, chamou a atenção o anúncio de Joaquim Roriz, que irá deixar o PMDB do Distrito Federal. Mas, no quesito sucessão presidencial, acoplada à eleição paulista, houve um movimento mais forte nos bastidores, vindo do PSB.
A pomba socialista, símbolo do partido presidido pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, joga tudo para incrementar a sua base em São Paulo, tirando umas lascas do PSDB. Ontem à noite, por exemplo, o vereador paulistano Gabriel Chalita, tucano apontado pelos seus correligionários como uma espécie de grilo falante do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, voou para Brasília, onde teria um encontro secreto com o presidente do PSB.
Se Eduardo Campos conseguir convencer Gabriel Chalita a ingressar no PSB, estará aberta uma porta de saída do PSDB para Alckmin, caso o ex-governador seja preterido na briga pelo governo paulista. A tendência do vereador é sair do partido e fechar uma candidatura ao Senado com o PSB, embora ainda tenha algumas conversas com o PV, onde Marina Silva atracou.
O que atrai Chalita ao PSB, além da boa convivência com os socialistas em São Paulo e das referências positivas que tem de Eduardo Campos, é a perspectiva de que pode, no futuro, servir de ponte para o grupo de Alckmin. Alckmin espera um aceno de José Serra de que será candidato a governador, só que esse sinal está cada vez mais fraco ¿ do ponto de vista pessoal, Serra prefere Aloyzio Nunes Ferreira na disputa ao governo, caso seja candidato a presidente da República.
Hoje, há no PSDB quem tenha um pequeno ressentimento de, no passado, não ter tido a coragem de deixar o ninho rumo a outros partidos, de forma a tentar criar uma terceira via em São Paulo, acabando com a polarização PSDB versus PT. Como os tucanos paulistas são muitos e não há lugar ao sol para todos, Chalita abre essa trilha rumo ao PSB.
Um possível ingresso de Chalita no PSB terá reflexos diretos sobre o cenário nacional. Vejamos o PSB: o partido de Eduardo Campos não vê a hora de trocar de lugar com o PT. E hoje está cada vez mais claro que, para isso, terá que tirar fôlego do PT de São Paulo. E, como o PSB não tem como tirar as celebridades do PT paulista porque soaria uma afronta ao partido de Lula, vai pescar no PSDB, reforçando a sua base para conquistar espaço de petistas e tucanos. Daí o interesse de Eduardo Campos em voar para Brasília para encontrar o vereador Gabriel Chalita.
Para os socialistas, está cada vez mais claro que Serra é hoje o nome mais forte do PSDB para ser candidato a presidente. E a ordem é fazer tudo o que for possível para atrapalhar esses planos e minar a base paulista tucana. Afinal, o PSB tem muito mais afinidades com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, do que com Serra. E, se o mineiro conquistar espaço, pode até ser que Ciro Gomes, que mantém mistério sobre a mudança do Ceará para São Paulo, desista de disputar a presidência da República.
Enquanto o PSDB não diz oficialmente com quem vai para a corrida presidencial ¿ e o PSB continuar achando que as chances de Aécio são remotas ¿, os socialistas vão aproveitar esse período para conquistar um lugar ao sol na avenida paulista. Afinal, em política, ao mesmo tempo em que um partido arma o seu jogo, faz o que pode para bagunçar o do outro. É assim que o PSB age no momento.