Título: Espanha e Itália sob pressão
Autor: Bôas, Bruno Villas; Scrivano, Roberta
Fonte: O Globo, 19/06/2012, Economia, p. 19
Mercado tira olhos da Grécia, e títulos espanhóis atingem patamar recorde de 7,29%
O otimismo dos mercados com a vitória dos conservadores nas eleições gregas durou pouco. Os investidores se voltaram para Espanha e Itália, consideradas as próximas peças do dominó da crise da dívida. O rendimento dos títulos espanhóis de dez anos ultrapassou 7% - patamar em que Irlanda, Grécia e Portugal tiveram de pedir socorro financeiro -, registrando o recorde de 7,29% durante o pregão, para fechar a 7,076% ao ano. É o maior nível desde que a Espanha entrou na zona do euro, em 1999. Os títulos italianos com vencimento em dez anos também avançaram, para 6,052%. Houve fortes perdas nas Bolsas de Madri (2,96%) e Milão (2,85%), enquanto o índice Dow Jones, de Nova York, recuou 0,20%. Em São Paulo, o dólar subiu 0,63%, a R$ 2,057.
- O refresco da Grécia durou muito pouco. As eleições evitaram o que poderia ser pior, mas o partido vencedor precisa ainda formar uma coalizão. E não resolvem o problema de outros países endividados, apenas evitou-se uma piora imediata. A novela terá novos capítulos, com a reunião do G-20 - explica Álvaro Bandeira, diretor da Órama Investimentos.
Pela manhã, o otimismo imperou: as Bolsas de Madri e Milão chegaram a subir 2,06% e 1,23%, respectivamente. Tiveram leve alta Londres (0,22%) e Frankfurt (0,30%). Atenas avançou 3,64%. Em Nova York, Nasdaq subiu 0,78% e S&P, 0,14%.
Dívida espanhola
já saltou 70%
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou em leve alta de 0,16%, aos 56.195 pontos pelo Ibovespa, seu principal índice. Este foi puxado pelos papéis preferenciais (PN, sem voto) de Petrobras (alta de 1,89%, a R$ 18,90) e Vale (0,81%, a R$ 38,71), em dia de vencimento de opções sobre ações. No mercado de câmbio, o Banco Central (BC) não interveio para impedir a valorização da moeda. Segundo operadores, o movimento do câmbio foi semelhante em outros países, o que pode ter levado o BC a ficar de fora do mercado. O dólar avançou frente ao euro (0,49%), à libra (0,31%) e ao dólar canadense (0,25%), por exemplo.
Um dos fatores que preocupa o mercado em relação a Itália e Espanha é o endividamento. Atrás da Grécia, a Itália é o país mais endividado da zona do euro. Pelos dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública bruta italiana atingiu 120% do Produto Interno Bruto (PIB), ou 1,89 trilhão, no fim de 2011. A Espanha estava na 11 posição, com endividamento de 68,5% do PIB, ou 735 bilhões. Dados do Banco da Espanha divulgados na sexta-feira mostram que esse número atingiu 72% do PIB, ou 774 bilhões, no primeiro trimestre deste ano.
Embora a situação italiana pareça mais preocupante, especialistas destacam a velocidade com que a dívida espanhola vem avançando desde o início da crise, em 2008. Enquanto o endividamento italiano subiu 14%, de 105,8% do PIB em 2008 para 120,1% no ano passado, o espanhol saltou 70%, de 40,2% para 68,5% do PIB, no mesmo período. Essa variação chega a 80% quando se consideram os números de sexta-feira.
Antonio Madeira, da LCA Consultores, diz que tanto o setor bancário como a situação fiscal são piores na Espanha. E lembra ainda a inadimplência dos financiamentos imobiliários. Ontem, o Banco da Espanha informou que esta atingiu 8,72% em abril, o maior nível desde 1994.
- Os pacotes ajudam a curto prazo, mas a população continuará sem pagar o financiamento ao banco - explica Madeira.
O desemprego também é mais alto na Espanha (24%) que na Itália (10,2%), lembra Silvio Campos, da Tendências Consultoria. Ele diz ainda que a proporção da dívida italiana dificulta um pacote de resgate, por isso é preciso evitar o pânico. Segundo ele, o Banco Central Europeu (BCE) pode fazer isso garantindo liquidez para o mercado.
- Na Itália, a dívida pública é altíssima, o Estado é ineficiente e não há produção industrial. Esses elementos tornam a dívida impagável. Logo, um calote virá - afirma Fernando Zilveti, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo.
Segundo Monica de Bolle, da Galanto Consultoria, uma solução para a dívida da Espanha esbarra na falta de recursos dos bancos do país, principais compradores de títulos públicos espanhóis. Para a economista, os 100 bilhões prometidos pela União Europeia (UE) para sanear os bancos espanhóis podem ser insuficientes, além de elevar a dívida para algo próximo de 80% do PIB:
- Não consigo ver como a Espanha conseguiria escapar de um plano de resgate. Quem financia a dívida do país são os bancos. Mas os bancos estão sem capital. E, para capitalizar os bancos, o país aumenta seu próprio endividamento.
"Rolagem de dívida
está insustentável"
Para Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, um custo de financiamento de 7% nos títulos de dez anos exigiria da Espanha um esforço fiscal de 2% do PIB (o chamado superávit primário). Mas o país tem hoje déficit. Num cenário de superávit primário zero, a taxa máxima que o país seria capaz de pagar seria de 4%.
Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da FGV e ex-presidente do BC, lembra que o custo de financiamento de Grécia, Portugal e Irlanda seguiu trajetória semelhante:
- O refinanciamento (rolagem) da dívida de Espanha e Itália via mercado está insustentável.
Os rendimentos são maiores nos títulos de dez anos de Portugal (10,01%), Grécia (24,95%) e Irlanda (7,09%). Essas taxas, porém, são no mercado secundário. Como os três países foram socorridos por UE e FMI, eles pagam as taxas cobradas pelos fundos de resgate europeus, na faixa de 5% a 6%.
Schwartsman ressalta que a alta do custo de financiamento de Espanha e Itália pode se refletir em outros países da região. Ele lembra que isso ocorreu na crise da Argentina, quando o avanço das taxas dos títulos públicos do país respingou sobre o rendimento dos papéis brasileiros.
* Com agências internacionais