Título: PIB baixo, inflação zerada
Autor: Carneiro, Lucianne
Fonte: O Globo, 07/07/2012, Economia, p. 29

A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) desacelerou para perto de zero em junho, a 0,08%, frente 0,36% em maio, reforçando as expectativas de que ficará abaixo de 5% em 2012. Sem o temor inflacionário e com a expectativa de desaceleração econômica para este ano, economistas preveem que o Banco Central intensificará a estratégia de reduzir a taxa básica de juros (Selic) na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), da próxima semana. Embora a principal influência para a inflação menor em junho tenha sido a do grupo Transporte, por causa do corte de IPI, há redução de preços em vários itens, o que pode ter relação com a desaceleração da economia, segundo a coordenadora de Índices de Preços do IBGE, Eulina Nunes.

- Foi uma redução bastante brusca de um mês para o outro. Um resultado muito próximo da estabilidade. O fator principal foram os automóveis novos, por causa do IPI, que levaram a uma redução de preço dos automóveis usados. (...) Mas outros itens também desaceleraram entre maio e junho e isso pode estar ligado à desaceleração da economia, sim, ao comprometimento da renda, ao fato de as pessoas estejam mais preocupadas com orçamento - afirmou ela, ao divulgar ontem os dados da pesquisa.

A taxa de 0,08% é a menor desde agosto de 2010, quando foi de 0,04%. Com a queda forte no mês, a inflação acumulada no ano diminuiu para 2,32%, bem abaixo dos 3,87% registrados no primeiro semestre de 2011. A inflação dos últimos 12 meses também caiu em junho: era de 4,99% em maio e agora está em 4,92%. É a menor variação acumulada desde setembro de 2010, quando ficou em 4,70%.

O grupo Transporte registrou deflação de 1,18%, com impacto de 0,24 ponto percentual no IPCA. Ou seja, a inflação geral teria sido de 0,32% - em vez de 0,08% - sem seu impacto. O preço de automóveis novos caiu 5,48% em junho, acompanhado por recuo de 4,12% dos usados. O IPI também teve efeito no preço de eletrodomésticos, que caiu 1,02% no mês passado.

Já o ritmo de alta do preço dos alimentos recuou em junho, para 0,68%, frente a 0,73%, embora permaneça em nível elevado. No acumulado de 2012, o aumento é de 3,26%, frente a 3,11% em igual período do ano passado. A valorização do dólar apareceu nos preços de pão de forma (3,10%) e pão francês (0,94%), mas pode ter influenciado também outros alimentos por causa do impacto em adubos e fertilizantes, de acordo com Eulina.

- Houve forte impacto da queda dos automóveis, mas vemos uma queda generalizada nos preços de itens comercializáveis. Claramente, há duas velocidades de inflação: os produtos comercializáveis têm ritmo baixo, em função da crise externa, enquanto os serviços ainda permanecem em patamar elevado, refletindo a renda - disse o estrategista-chefe do banco WestLB do Brasil, Luciano Rostagno.

Juros podem cair a 7% no fim do ano

Para o economista-chefe do ABC Brasil, Luis Otavio de Sousa Leal, a desaceleração da atividade econômica ajuda a melhorar o "perfil da inflação". Mas é difícil estimar o impacto, já que ocorre principalmente nos bens duráveis, como em eletrodomésticos da linha branca, em que também há o efeito do IPI.

- Quase 80% da desaceleração da inflação entre maio e junho vêm de automóveis novos e usados, mas se olharmos os nove grupos de produtos apenas dois registraram aceleração - ressaltou.

Com o desempenho de junho, ganha força a avaliação de que a inflação ficará abaixo dos 5% este ano, após fechar 2011 no teto da meta do governo, em 6,5%. O mercado projeta que o IPCA encerre 2012 em 4,93%, segundo o último Boletim Focus.

Além do IPCA, indicadores como o baixo desempenho do comércio e da indústria mostram um cenário de recuperação da economia muito aquém do esperado, o que levou bancos e consultorias a rever suas projeções para a Selic. Na última reunião do Copom, em maio, a taxa foi reduzida de 9% para 8,50%. A Austin Rating, que esperava apenas mais um corte na taxa básica, para 8% ao ano, agora projeta mais dois cortes, fechando 2012 com 7,5%.

- Os novos indicadores revelam uma desaceleração mais forte que o previsto e, no caso da indústria, a tendência é de queda ainda mais acentuada por causa da situação externa - disse Felipe Queiroz, economista da Austin Rating, que também reviu para baixo suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB), de 2,7% para 1,9% este ano.

Relatório do Itaú Unibanco projeta alta de 1,9% para o PIB em 2012, ante os 2% anteriores. Com relação a Selic, o banco espera que a taxa caia a 7% (antes era 7,5%), em três reduções de meio ponto percentual ao longo deste segundo semestre.

"Embora as revisões de projeções tenham sido pequenas, o risco de crescimento baixo ainda estrá presente, e o Banco Central provavelmente reagirá", escreveu o economista do Itaú Unibanco, Elson Teles, em relatório divulgado ontem.

O Banco Fator não mudou sua projeção para a próxima reunião do Copom (8%), mas acredita que o ritmo deve "seguir na toada de redução de meio ponto percentual, ao menos até 7,5%". Segundo o último relatório do banco, "a novidade é que mantemos a Selic no mesmo nível até o final de 2013, agora ao nível de 7,50% e não mais 8%". Já a Rosenberg Associados projeta mais dois cortes, de 0,5 ponto percentual cada, na taxa básica de juros.

- Esse ciclo que deveria se encerrar com a Selic em 7,5% em dezembro já estava em nossas projeções. Se houver uma deterioração adicional no cenário externo, 7,5% passa a ser teto, e o Copom pode ampliar sua meta de cortes - afirmou Rafael Bistafa, economista da Rosenberg.

- A inflação está baixa, menor que 5%, e a atividade industrial está fraca, o que deixa o Banco Central bastante confortável para continuar cortando os juros, o que deve continuar ocorrendo agora em julho e em agosto. Minha projeção é de que a Selic encerre o ano em 7,5%. E não é impossível, em um cenário alternativo, que chegue a 7% - afirmou o economista-chefe do BES Investimento, Flavio Serrano.

Peso maior para os mais pobres

Em junho, a inflação foi maior para as pessoas de renda mais baixa. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) - que mede a inflação para quem tem renda entre um e seis salários mínimos - subiu 0,26%, frente aos 0,08% do IPCA (calculado para famílias com renda de um a quarenta salários mínimos).

- As pessoas que têm renda mais alta gastam grande parte de orçamento em automóveis, que estão com preços mais baixos. Já as pessoas que têm renda mais baixa gastam grande parte do orçamento com alimentos, que estão mais caros - explicou Eulina, do IBGE.