Título: UE concorda em plano de crescimento de 120 bi
Autor:
Fonte: O Globo, 29/06/2012, Economia, p. 27

Espanha e Itália, porém, condicionam aprovação a medidas de curto prazo para reduzir seus custos de financiamento

BRUXELAS . Espanha e Itália, que enfrentam cada vez mais dificuldade em obter recursos no mercado, bloquearam ontem um acordo sobre um pacote de crescimento para a Europa, de 120 bilhões - abaixo do sugerido inicialmente, de 130 bilhões. O premier italiano, Mario Monti, e o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, condicionaram sua aprovação do pacote à adoção, pela União Europeia (UE), de medidas de curto prazo para tranquilizar os mercados. Esta é a 20 cúpula da UE desde o início de 2010, quando a Grécia revelou um rombo em seu Orçamento.

As discussões entre os líderes da UE não foram fáceis: o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, anunciou o pacote de 120 bilhões - o equivalente a cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos) do bloco - depois das 22h, horário de Bruxelas (17h em Brasília). O pacote visa a estimular o investimento em infraestrutura e a reforçar o capital do Banco de Investimento Europeu.

- Não há bloqueio, continuamos trabalhando - afirmou Van Rompuy em entrevista coletiva.

"Batalha épica" entre crescimento e austeridade

Mas Espanha, Itália e alguns outros países disseram querer, antes de aprovar o pacote, que a UE dê sinal verde para que os fundos de resgate do bloco comprem títulos da dívida das nações com problemas. Isso ajudaria a reduzir a taxa de retorno desses títulos.

Os bônus de dez anos da Espanha registraram ontem, no mercado secundário, uma taxa de 6,93% - muito próximo do patamar de 7%, que levou Irlanda, Grécia e Portugal a pedirem socorro financeiro à UE.

Já os papéis de dez anos da Itália leiloados ontem tiveram taxa de retorno de 6,19%. Em operação semelhante no mês passado, a taxa fora de 6,03%.

Antes do início da reunião, Rajoy repetiu seu alerta dos últimos dias: a Espanha, bem como suas instituições financeiras, não pode continuar se financiando por muito tempo se os juros permanecerem nesse patamar. Espanha e Itália, segundo fontes, teriam o apoio da França.

- Há uma batalha épica entre aqueles que buscam solidariedade imediata e incondicional e aqueles que buscam, basicamente, mudar a maneira pela qual as economias europeias são conduzidas e colocar a Europa na rota da estabilidade , disciplina e crescimento - afirmou à Reuters uma autoridade da UE, depois de quase oito horas de debates.

Outra fonte afirmou que o presidente francês, François Hollande, o maior defensor do pacote do crescimento, também teria levantado questões e buscado o adiamento da adoção de medidas para reforçar a disciplina orçamentária da UE. Representantes do governo francês não quiseram comentar os rumores.

O premier da Finlândia, Jyrki Katainen, alinhou-se com Espanha e Itália. Antes da reunião, ele defendeu a compra de títulos espanhóis e italianos pelos fundos de resgate europeus.

Reforço de 60 bi no Banco Europeu de Investimento

Em comunicado, Van Rompuy explicou de onde virão os recursos do pacote. "Um aumento de 10 bilhões no capital do Banco Europeu de Investimentos elevará a capacidade de empréstimos deste em 60 bilhões." Segundo o presidente do Conselho, "esse dinheiro precisa circular pela Europa" para que as empresas consigam crescer e sair da crise.

Os outros 60 bilhões, explicou, virão da realocação de fundos de infraestrutura não usados ( 55 bilhões, a serem destinados a pequenas e médias empresas) e da fase inicial dos bônus para financiamento de projetos de transporte, energia e banda larga, que serão lançados nos próximos meses ( 5 bilhões).

Van Rompuy disse ainda que crescimento não se limita a injetar dinheiro na economia. Ele explicou que os líderes dos 27 países da UE discutiriam o futuro da zona do euro no jantar.

Segundo o presidente do Conselho, o assunto voltará à pauta na cúpula de outubro. "Todos concordamos que é preciso um acordo rápido, antes do fim do ano", disse Van Rompuy na nota.

A chanceler alemã, Angela Merkel, cancelou uma entrevista coletiva que estava prevista. Antes da reunião, ela havia declarado seu apoio ao pacote de crescimento, classificando-o como "um bom programa, especialmente em termos de investimento voltado ao futuro e, acima de tudo, de mais oportunidades de emprego para os jovens".

Enquanto os líderes discutiam o futuro da UE, a Itália eliminou a Alemanha da Eurocopa, por 2 a 1. O jogo ganhou um significado simbólico pelas posições antagônicas dos líderes dos dois países: Mario Monti, escolhido como um premier técnico para tentar tirar a Itália da crise, vem crescendo como líder na zona do euro.

Segundo Steven Pearlstein, colunista do jornal americano "Washington Post", Monti tornou-se uma figura-chave da crise, capaz de fazer a ponte entre Hollande, ferrenho defensor de gastar para crescer, e Merkel, que quer austeridade a qualquer custo. Uma posição que não foi esquecida pelos torcedores:

- Depois disso (a derrota), os alemães nunca vão nos dar os eurobônus - disse à Reuters Paolo Brusca, que acompanhou o jogo em um telão num parque de Roma. - Somos a pedra no sapato deles.