Título: Suplente de Demóstenes assume cadeira no Senado às escondidas
Autor: Lima, Maria
Fonte: O Globo, 14/07/2012, O País, p. 4

BRASÍLIA. O suplente do senador cassado Demóstenes Torres, o empresário Wilder Pedro de Morais (DEM-GO), suspendeu as férias, driblou a direção de seu partido e madrugou ontem no Senado às moscas para tomar posse do mandato de seis anos e meio. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), 4 secretário da Mesa, foi convocado na última hora para presidir a sessão da posse relâmpago, que durou menos de três minutos, na presença de outros três senadores que se surpreenderam com a inesperada aparição do suplente no plenário.

O encontro com a direção do DEM foi adiado e já há informações de que o novo senador estaria conversando com o presidente do diretório do PSD em Goiás, Wilmar Rocha, sobre sua ida para a legenda. A exoneração da Secretaria de Infraestrutura foi publicada na quinta-feira, mas ele continua próximo ao governador Marconi Perillo, do PSDB.

Sem pompa ou presença de familiares, trajando um terno simples e pouco à vontade, o milionário dono de um conglomerado de empresas na área de construção civil tomou posse e sumiu de novo. Monossilábico e ressabiado, segundo os senadores presentes, se apresentou, fez o juramento e deixou a Casa, sem nem passar pelo gabinete.

- Depois do juramento, eu desci com ele no elevador, mas ele não disse quase nada. É uma pessoa muito simples e estava um pouco assustado - contou Ciro Nogueira.

- Eu fui surpreendido tanto quanto a sociedade. Foi uma posse relâmpago. O tradicional é haver mais pompa, com muita festa da família - comentou o senador Mozarildo Cavalcante (PTB-RR) que, junto com Roberto Requião (PMDB-PR) e Ana Amélia Lemos (PP-RS), deu quórum para a posse.

Quinze minutos depois da posse, Wilder ligou para o presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), para comunicar o ato e garantir que irá responder a todas às acusações de ligação com o grupo do bicheiro Carlos Cachoeira e de suspeitas sobre seu patrimônio.

- Ele não vai fugir. Ainda não tem experiência com holofotes, é um empresário, não tem prática. Os últimos grampos publicados pela imprensa depõem a favor do Wilder. Mostram que ele não estava atendendo a pedidos do grupo de Cachoeira, que estava articulando para derrubá-lo da Secretaria - disse Agripino.

Um pouco depois, Wilder se manifestou pelo Twitter, canal que tem usado nos últimos dias. "Interrompi minhas férias e tomei posse hoje pela manhã no Senado. Vou honrar Goiás e o Brasil em minha atuação parlamentar".

Na noite da véspera, Wilder também usara o Twitter para responder aos senadores que defenderam sua ida à CPI do Cachoeira para explicar suas relações com o bicheiro: "Áudio exibido pela imprensa mostrando Carlos Cachoeira dizendo q (sic) me indicou a suplente e secretário é fragmento de uma conversa. Discutíamos sobre questões de foro íntimo, que resultou(sic) na minha separação da esposa (Andressa Mendonça). Ao contrário do que vem sendo divulgado, meu real propósito não foi mostrar gratidão, mas pôr fim a uma conversa constrangedora. Se a íntegra da conversa fosse divulgada, a interpretação dos fatos certamente seria outra".

O vice-presidente da CPI do Cachoeira, deputado Paulo Teixeira (PT-SP), disse que está em estudo a ideia de pedir a impugnação de toda a chapa que elegeu Demóstenes em 2010.

- Nós pensamos em evoluir para isso porque a chapa está toda contaminada. A vitória deles foi uma fraude, no contexto de um grande crime eleitoral. O Wilder chega aqui sem legitimidade. Vamos avaliar o que pode ser feito no contexto da CPI - anunciou.