Título: No último discurso, Demóstenes volta a acusar, desta vez a imprensa
Autor: Celso Pereira, Paulo; de Góis, Chico
Fonte: O Globo, 12/07/2012, O País, p. 4

BRASÍLIA. Foram três horas e meia de agonia, assistidas por Demóstenes Torres quase sempre em silêncio, até ser anunciado o resultado da votação que cassou seu mandato de senado. Das 9h53m, quando entrou no plenário vazio, até as 13h23m, quando foi aberta a apuração dos votos, ele ficou sentado, isolado, ao lado de seu advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Levantou-se três vezes: duas para ir ao banheiro e uma para ir à tribuna e fazer seu discurso, de 36 minutos, marcado por apelos dramáticos.

Demóstenes tentou chocar os senadores ao se dizer vítima de acusações sem prova:

- Chamar uma mulher de vagabunda é algo que a crucifica para o resto da vida. Como é que ela vai provar a sua honestidade? Como é que ela vai provar a sua honradez, se, desde o início, foi jogada no chão. Aqui, senhores, eu me defendi de várias adjetivações. Fui chamado, pela imprensa, de bandido, pilantra, psicopata, braço político, desonesto, uma pessoa que tem dupla personalidade, que coloquei o meu mandato à disposição de uma quadrilha, que era um despachante de luxo. Por isso, senhores, os códigos exigem que o fato seja devidamente explicitado. Então, senhores, eu gostaria de me defender dos fatos.

Com o plenário em silêncio, Demóstenes quis convencer os senadores de que não tinha relação indevida com Carlinhos Cachoeira. Aos berros, se disse vítima de gravações adulteradas e reclamou de pouco tempo para a defesa. Dedo em riste, como nos tempos de acusador, disse não ter amealhado patrimônio significativo e atacou a imprensa.

- Fui perseguido como um cão sarnento (...) Fui investigado como ninguém foi investigado no Brasil, dia e noite, e não apareceu nada, nada, nada, nada.

Seu isolamento ficou claro. Foi cumprimentado por alguns senadores, sempre de forma rápida. Contato permanente só com Kakay, amigos e parentes que enviavam mensagens de celular. Numa delas, a afilhada Larissa o incentivou: "Força na peruca!! Família unida com o senhor!! Lembre-se: já venceu!!! Bjos".

Assim que surgiu o resultado, ele se levantou-se, saiu pela sala do cafezinho dos parlamentares e foi ao seu gabinete. Chamou os seus funcionários e se despediu:

- Bola pra frente. A vida continua - disse.

À noite, informou pelo Twitter que tentará recuperar seu mandato no Supremo Tribunal Federal (STF), onde corre processo pela anulação das provas que levaram à sua cassação: as gravações feitas pela Polícia Federal. "Vou recuperar no STF o mandato que o povo de Goiás me concedeu". "Fui cassado sem provas, sem direito a ampla defesa e sem ter quebrado o decoro". (COLABOROU Flávia Pierry )