Título: Cassação pressiona CPI do Cachoeira
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Fonte: O Globo, 12/07/2012, Opinião, p. 6

Ado senador Demóstenes Torres (ex-DEM, sem partido) era uma cassação anunciada. Depois de emergir, de forma surpreendente, de investigações da Polícia Federal sobre a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, como ilustre representante no Congresso do esquema criminoso do contraventor goiano, Demóstenes, grande paladino da moralidade, terror de corruptos, teve a imagem estilhaçada em poucos dias de revelações.

Mesmo que a perda do cargo tivesse sido aprovada por unanimidade no Conselho de Ética e na Comissão de Constituição e Justiça, a prudência aconselhava um mínimo de ceticismo diante da votação de ontem em plenário, pois nunca se sabe do que são capazes o corporativismo e o compadrio existentes no Congresso.

Mas, ao prestar serviços ao crime organizado, enquanto encenava para o grande público o papel de caçador de corruptos, em que semeou inimizades no Senado, Demóstenes Torres ultrapassou vários limites. Terminou cassado por 56 votos - 15 a mais que os necessários, com 19 ficando a seu favor. Cinco se abstiveram, uma maneira envergonhada de ficar ao lado de Demóstenes.

Em 188 anos de Senado, ele é o segundo parlamentar cassado. Antes, só Luiz Estevão, de Brasília, implicado na roubalheira da construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, obra do juiz Nicolau "Lalau" dos Santos Neto, há tempos em prisão domiciliar.

Enfim, uma punição, na esfera política, no entorno da quadrilha de Cachoeira, um dos casos mais graves da vida pública brasileira de infiltração do crime organizado no Estado. Além da descoberta da assessoria prestada por Demóstenes Torres a Cachoeira, as operações Monte Carlo e Las Vegas, já com os devidos desdobramentos judiciais, acumularam rico acervo de provas e indícios de conexões do contraventor no governo tucano de Goiás (Marconi Perillo), na gestão petista de Brasília (Agnelo Queiroz) e no amplo balcão de negociatas em torno de obras públicas, por meio da Delta, empreiteira do PAC.

Cassar Demóstenes, portanto, deve ser apenas o início. Ou deveria. Enquanto o ex-senador, agora sem foro especial, precisa se preparar para defender-se na Justiça comum, a CPI mista, instalada formalmente para investigar o caso, recebe mais uma pressão. Queiram ou não, o Senado, ao retirar o mandato do senador goiano, considerou implicitamente válidas as acusações que justificaram a instalação da CPI. Agora, ela que trate de trabalhar.

E mesmo que não o faça - por medo de uma base governamental preocupada com o que podem guardar os arquivos da Delta e outros -, o caso continua a tramitar na Justiça. O Senado pode se sentir com o dever cumprido, porém os maus fluídos que emanam do esquema goiano continuam a ameaçar a Casa. Sai Demóstenes, chega o suplente (sem voto, por suposto) Wilder Morais, empresário, ex-marido da atual mulher de Carlinhos Cachoeira.

Ele já desembarca em Brasília tendo de se explicar. É dono de um patrimônio, segundo registros da Justiça Eleitoral, de R$ 14,4 milhões, distribuídos, em parte, por 15 empresas. Mas, na Junta Comercial, são 24. O novo senador se esqueceu de dar conta ao TSE de pelo menos dois shoppings. O esquema goiano continua na agenda ética do Congresso.