Título: Sufoco na embaixada
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 24/09/2009, Mundo, p. 36

Simpatizante do presidente deposto, Manuel Zelaya, e jornalista relatam ao Correio a tensão dentro da representação brasileira em Tegucigalpa. Governo de fato barra entrada de alimentos no prédio e coloca franco-atiradores de prontidão

Os gritos tornavam a entrevista quase inaudível. ¿Assassino! Assassino!¿ As palavras ecoavam ao telefone, enquanto o hondurenho Juan Barahona, coordenador do Bloco Popular e líder da Frente Nacional contra o Golpe de Estado, se aproximava da Casa Presidencial, em Tegucigalpa. ¿Somos mais de 150 mil pessoas e vamos continuar nas ruas todos os dias, em repúdio absoluto¿, avisou à reportagem o ativista pró-Manuel Zelaya.

Enquanto a ¿Marcha da Resistência Pacífica¿ seguia rumo à Embaixada do Brasil, onde o presidente deposto se encontra refugiado, o Correio falava, por celular, com o jornalista Jose Luis Galdamez e com Carlos Eduardo Reina ¿ o filho do ex-presidente Carlos Reina recebeu de Zelaya a incumbência de organizar o movimento por seu retorno ao poder. Ambos estavam dentro da representação diplomática brasileira e contaram que o líder afastado ficou satisfeito com a intervenção do colega Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU (leia matéria nesta página).

A partir de uma extremidade dos jardins da embaixada, Reina admitiu que a situação era de ¿grande tensão¿. ¿Ontem (segunda-feira), éramos 313 cidadãos aqui. Com a ajuda dos direitos humanos, conseguimos retirar cerca de 243, que vieram se refugiar ante a brutal repressão nas ruas¿, relatou. ¿Temos problemas de alimentação, (os soldados) não deixam passar comida, roupas, remédios, nem um antibiótico necessário para uma pessoa que está com infecção nos brônquios.¿

Na tentativa de garantir o mínimo de higiene no prédio, simpatizantes de Zelaya se organizaram, durante a manhã, e fizeram uma faxina no local. Galdamez, por sua vez, considerou as condições de higiene ¿precárias¿, disse que existe apenas um banheiro para 70 pessoas ¿ entre elas, três brasileiros ¿ e acusou Micheletti de violar direitos humanos fundamentais. ¿Lançaram bombas aqui que machucam o tímpano. Temos gente com dor de cabeça, náuseas e vômitos¿, descreveu. A Anistia Internacional se declarou ¿alarmada¿ com a situação deflagrada em Honduras pelo golpe de 28 de junho.

Diante de um quadro cada vez mais tenso e imprevisível, Reina pediu a intervenção das Nações Unidas e descreveu como as forças de segurança exercem pressão sobre a embaixada, na tentativa de forçar a saída de Zelaya. ¿Nos telhados das casas vizinhas, vemos franco-atiradores com rifles e policiais com aparatos que distorcem os sinais dos celulares¿, comentou, por volta das 13h20 (16h20 em Brasília).

Naquele momento, Zelaya estava reunido com a mulher, Xiomara Castro; o filho, Jose Manuel; assessores e advogados. O ativista considerou lamentável a ¿agressão ao território brasileiro¿ e garantiu que Honduras vai reparar os danos morais ao Brasil, ¿quando o presidente for restituído ao poder¿. Também acusou Micheletti de preparar uma invasão à embaixada ¿ segundo ele, o plano incluiria matar Zelaya e simular um suicídio. Às 17h30 (hora de Brasília), Reina contou que militares reprimiam com violência os manifestantes a apenas três quadras da representação. O Correio voltou a falar com Barahona às 19h (hora de Brasília). Ele disse que 26 pessoas ficaram feridas, algumas à bala. A polícia confirmou que um jovem foi morto na terça-feira à noite.

Diálogo

Mais cedo, em entrevista à agência France-Presse, Zelaya disse que espera dialogar ¿pessoalmente¿ com Roberto Micheletti. ¿Esse é o objetivo (da volta a Honduras), dialogar de forma pessoal, não apenas com ele, como também com os grupos econômicos do país, com os grupos políticos que têm interesse em participar das eleições de novembro¿, comentou. ¿Cheguei a Honduras com uma proposta de diálogo que foi respondida com bombas de gás lacrimogêneo.¿ Enigmático, comentou que ¿países da América Central¿ o ajudaram a retornar ao país.

O governo de fato aceitou receber uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Tegucigalpa. Por meio de um comunicado, Micheletti se mostrou disposto à negociação, desde que Zelaya reconheça as eleições previstas para 29 de novembro. ¿Primeiro, eu quero escutar da parte dele que aceita as eleições¿, declarou à emissora BBC. Juan Barahona, no entanto, garantiu: ¿A saída é só uma: retirar esse golpista do poder¿.

Ouça entrevistas com Carlos Eduardo Reina, ativista pró-Zelaya, e com o jornalista Jose Galdamez, entrincheirados na Embaixada do Brasil, em Tegucigalpa (em espanhol)

Lula pede volta ao poder

Ao abrir a rodada de discursos da 64ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou para pedir a restituição do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, ao poder. Lula anunciou mais tarde que já conversou com o colega americano, Barack Obama, e espera que os dois possam discutir ainda esta semana a crise no país centro-americano. No discurso, o presidente brasileiro pediu à comunidade internacional que fique atenta à segurança da embaixada brasileira em Tegucigalpa.

Assim como o brasileiro, os presidentes do Uruguai, Chile e Argentina se declararam contra o governo de fato em Honduras e o golpe que tirou Zelaya do posto. Horas antes, o presidente deposto, aquartelado na embaixada brasileira em Tegucigalpa, fez um apelo para que a ONU não abandone o povo de seu país. ¿Nós estamos agradecidos a tudo que a comunidade internacional já fez, mas agora pedimos a todos que estão nas Nações Unidas que não abandonem o povo hondurenho neste momento crítico¿, afirmou Zelaya à France Presse.

¿A comunidade internacional exige que Zelaya reassuma imediatamente a Presidência e deve estar atenta à inviolabilidade da missão diplomática brasileira na capital hondurenha¿, disse Lula. Ele destacou que, se faltar vontade política dos líderes mundiais, continuarão a proliferar ¿anacronismos, como o embargo contra Cuba e golpes de Estado como o que derrocou o presidente constitucional de Honduras¿.

A presidenta do Chile, Michelle Bachelet, também aproveitou seu discurso para pedir ¿eleições livres e democráticas¿ em Honduras, que devem ser coordenadas pelo presidente ¿eleito democraticamente¿. A mandatária lembrou que a América Latina ¿condenou energicamente os retrocessos democráticos¿, como o que ocorreu em Honduras.

A argentina Cristina Kichner, por sua vez, alertou a comunidade internacional para o ¿precedente¿ criado por um governo não reconhecido. ¿Se não construirmos uma estratégia precisa e forte que faça retornar a democracia em Honduras (¿) estaremos semeando um precedente¿, disse. O presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, também pediu a restituição da ordem democrática no país, acrescentando que seu país ¿rejeita a ruptura da institucionalidade¿.

Parlamentares

A Câmara dos Deputados aprovou o envio de uma comissão a Honduras para avaliar a situação da embaixada brasileira em Tegucigalpa. ¿A ideia é rechaçar todas as tentativas de desvirtuamento das instituições e proteger a integridade da representação brasileira em Honduras¿, declarou o deputado Ivan Valente (PSol-SP). Não há data definida para a partida da comitiva. Também ontem, nove deputados federais e um senador entregaram um documento à Embaixada de Honduras, em Brasília, pedindo o retorno imediato do presidente deposto.