Título: Europa acerta em avançar na integração
Autor:
Fonte: O Globo, 30/06/2012, Opinião, p. 6
Numa longa noite de negociações em Bruxelas, horas depois de a seleção da Itália derrotar a da Alemanha na Eurocopa, os chefes de governo da Itália e da Espanha, com o apoio da França, parecem ter levado a chanceler alemã, Angela Merkel, às cordas. Para alguns, ela cedeu: um fundo a ser criado, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, poderá salvar diretamente bancos em apuros, e são muitos, sem que o dinheiro passe pelo governo nacional, como era obrigatório. Quebra-se, assim, o círculo vicioso em que bancos privados em dificuldades acabam levando de roldão os Tesouros nacionais, que tinham de financiá-los.
Por outro lado, para que o acordo funcione, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, sob controle do Banco Central Europeu (BCE), ganha poderes regulatórios e de supervisão supranacionais - um importante primeiro passo para a integração bancária europeia e, segundo especialistas, a mudança mais significativa na zona do euro desde sua criação. E na linha defendida por Merkel da necessidade de maiores responsabilidades compartilhadas para que a ajuda a países altamente endividados não se faça em grande parte às expensas dos que cumpriram as metas de solvência fiscal.
O primeiro beneficiário da decisão será a Espanha. Os líderes europeus concordaram em reestruturar o plano de recapitalização bancária aprovado para o país, de 100 bilhões, de forma que o dinheiro possa ser canalizado diretamente para as instituições, o que significa que Madri não precisará mais jogar o custo sobre o Tesouro nacional. A consequência benéfica é melhorar a situação financeira do governo, o que se refletirá em juros mais baixos a serem pagos no refinanciamento da dívida pública. Outra ajuda significativa aos governos nacionais é que mecanismo de estabilidade poderá comprar títulos dos governos em situação difícil, ajudando a baixar o custo de financiamento nos mercados.
A partir da criação do fundo, qualquer país que buscar ajuda para cumprir as metas da UE não ficará mais sujeito às rígidas medidas de austeridade ainda aplicadas no caso da Grécia - não haverá mais a troika (BCE, FMI e Comissão Europeia) dizendo o que cada governo deve fazer. Será assinado um memorando de entendimento e os países terão de manter os compromissos assumidos em relação a dívida e déficit. Por sua vez, as autoridades europeias podem determinar cronogramas e prazos mais rígidos, se julgarem necessário.
Depois da Espanha, o próximo candidato às novas regras de resgate financeiro na UE deverá ser a Itália. Os líderes europeus concordaram em estudar a aplicação do mecanismo também à Irlanda, que sofreu um colapso bancário semelhante ao espanhol. Os mercados reagiram euforicamente. As bolsas de valores subiram 4,3% em Frankfurt, 5,7% em Madri e nada menos de 6,6% em Milão. O euro subiu 2% em relação ao dólar, e as taxas pagas pelos títulos de Espanha e Itália caíram sensivelmente.
As decisões tomadas noite a dentro em Bruxelas são apenas um primeiro passo no caminho certo para o enfrentamento da grave crise da zona do euro. E confirmam o diagnóstico do presidente da Comissão Europeia: "A resposta que temos dado à crise tem sido sempre buscar mais integração. A solução é mais Europa." Falta um longo percurso, mas na madrugada de ontem um trecho foi percorrido.