Título: MPF: Cachoeira pode pegar 20 anos de prisão
Autor: Carvalho, Jailton de; Sassine, Vinícius
Fonte: O Globo, 25/07/2012, O País, p. 4

No primeiro dia de audiência, advogados tentam desqualificar provas contra grupo do bicheiro; sentença deve sair em agosto

Enviados especiais

GOIÂNIA. O Ministério Público Federal diz acreditar que o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, será condenado a mais de 20 anos de prisão, e que isso deve ocorrer até o final de agosto. O julgamento está na fase final. Ontem, o juiz Alderico Rocha Santos, substituto da 11 Vara Federal de Goiás e responsável pelo processo, interrogou as primeiras testemunhas do caso - dois agentes da Polícia Federal que participaram das investigações da Operação Monte Carlo, deflagrada em 29 de fevereiro. Durante a sessão, advogados de defesa tentaram dificultar o andamento dos trabalhos, desqualificaram as investigações da Polícia Federal e desferiram ataques à imprensa.

- As provas dos autos são robustas. O Ministério Público trabalha com a possibilidade de condenação superior a 20 anos - rebateu a procuradora Léa Batista Oliveira, no intervalo da primeira audiência.

Depois do interrogatório de testemunhas e réus, acusação e defesa terão dez dias para apresentar as alegações finais. Ao final do prazo, o juiz terá mais dez dias para concluir o processo e encerrá-lo. Cachoeira e mais sete cúmplices são acusados de corrupção de agentes públicos e formação de quadrilha armada, entre outros crimes. O bicheiro, cujo interrogatório está previsto para hoje, deverá ser denunciado ainda por lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

A relação entre Cachoeira e políticos, como o ex-senador cassado Demóstenes Torres e o governador de Goiás, Marconi Perillo, está sob investigação do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça.

A sessão de interrogatório das testemunhas começou em clima tenso, pouco depois das 9h. Alguns advogados reclamaram da segurança, dos jornalistas e do desmembramento do processo, que contava inicialmente com 81 acusados.

Durante o interrogatório do agente Fábio Alvarez Shor, testemunha do MP, Dora Cavalcanti e Ney Moura Teles, advogados de Cachoeira e do ex-vereador Wladmir Garcez, um dos oito acusados, tentaram apontar falhas formais no inquérito da Polícia Federal. Em nenhum momento, porém, os advogados rebateram o conteúdo da denúncia formulada por Léa Batista e pelo colega Daniel de Resende Salgado. A mesma estratégia foi usada com o segundo depoente, o agente da PF Luiz Carlos Pimentel.

Advogados querem anulação de provas

Para tentar justificar que Demóstenes Torres teria sido investigado ilegalmente e, por isso, o processo seria nulo, o advogado Moura Teles citou um diálogo de Demóstenes com Cachoeira sobre legalização dos jogos, cujo teor foi ouvido pelos agentes da PF. A citação serviu para insinuar que as provas teriam sido recolhidas de forma irregular, sem validade jurídica.

- Esses diálogos foram extirpados do processo, mas o agente ouviu vários diálogos de Demóstenes e Cachoeira. Essa é a chave da nulidade desse processo - disse Teles.

O procurador Daniel Resende lembrou, então, que o diálogo faz parte da Operação Vegas, e não da Operação Monte Carlo, motivo do processo. O interrogatório das testemunhas foi acompanhado por Cachoeira e outros seis réus. O grupo é apontado como núcleo central da organização do bicheiro.

Hoje, os advogados tentarão retardar os interrogatórios dos réus. O MPF acredita que Cachoeira permanecerá calado. Numa rápida conversa com o juiz, o bicheiro provocou risos na plateia. Perguntado pelo magistrado se poderia ser chamado de Carlos Cachoeira, respondeu:

- Carlinhos Cachoeira.