Título: PT avalia estrago causado por condenação
Autor: Roxo, Sérgio
Fonte: O Globo, 31/08/2012, O País, p. 6

Para partido, assunto pode ficar centralizado no Sudeste e no Sul

SÃO PAULO Constrangidos pela condenação do deputado João Paulo Cunha no Supremo Tribunal Federal (STF), os petistas avaliam a extensão dos danos às candidaturas do partido por todo o país. Para líderes do PT, o assunto pode ficar centralizado nas campanhas de Sudeste e Sul e repercutir mais sobre os candidatos que tenham sofrido denúncias de corrupção e irregularidades.

Em São Paulo, por exemplo, os petistas já discutiram o caso e apostam no passado sem processos judiciais de Fernando Haddad, ex-ministro da Educação no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e no primeiro ano do governo Dilma Rousseff.

O caso de João Paulo Cunha passou a preocupar mais diante da artilharia pesada por parte do PSDB. Na semana passada, os tucanos já chamavam de "bilhete mensaleiro" o projeto apresentado por Haddad de instituir um bilhete mensal para o transporte de ônibus na cidade.

vacina contra ataque tucano

Vacinados contra um eventual ataque aos petistas por conta do julgamento do processo do mensalão, os integrantes da legenda já têm um discurso pronto:

- A oposição usou esse debate o tempo inteiro, desde 2006, e não tem moral para falar de ética conosco. Até no caso do bilhete mensal, (José) Serra veio com esse assunto de bilhete mensaleiro. E deu no que deu: aumentou a rejeição a ele - disse o deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP), referindo-se à queda do tucano nas pesquisas de intenção de voto divulgadas na noite de anteontem.

Uma das principais lideranças do PT no estado de São Paulo, no entanto, diz que é preciso esmiuçar os motivos que levaram ao crescimento das intenções de voto do candidato do PRB, Celso Russomanno, primeiro lugar nas pesquisas:

- Russomanno representa o não político. O eleitor dele pode ser aquela pessoa que rejeita o (José) Serra e também decidiu não votar no PT por causa do mensalão - diz o petista.

PT aponta erro de João Paulo

Apesar do tom adotado pela cúpula do PT, em solidariedade e respeito ao deputado João Paulo Cunha, nas conversas privadas há muitas críticas em relação à sua insistência em apresentar candidatura, mesmo com a iminência de haver uma condenação em pleno processo de campanha eleitoral.

Para o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), o PT já sofria os efeitos do julgamento do mensalão antes mesmo da condenação de João Paulo.

- A dificuldade de arrecadação que o próprio PT informou sentir nesta eleição é um sinal de que os doadores estão secando. E a situação do partido pode piorar, com o PT levando mais lama ainda, com outras condenações e mais citações, como aquelas proferidas por advogados vinculando o nome do ex-presidente Lula - diz o cientista político.

Professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Fernando Azevedo afirma, no entanto, que existe um certo esgotamento na exploração do caso do mensalão pelos adversários da legenda.

- Acho que os adversários podem até usar a condenação na campanha eleitoral, mas já se esgotaram os efeitos negativos do mensalão sobre o PT. Mas é natural que o partido esteja constrangido, porque João Paulo é o único réu do mensalão que se candidatou a prefeito - afirma o professor Fernando Azevedo. ( Sérgio Roxo e Tatiana Farah )