Título: O jogo brasileiro na eleição
Autor: Otavio, Chico
Fonte: O Globo, 01/09/2012, O Mundo, p. 34
Na segunda-feira 10 de setembro, José Eduardo dos Santos completa 33 anos de absoluto domínio do poder em Angola. Hoje, ele deve emergir das urnas com legitimidade constitucional para mais cinco anos no comando do país.
Os resultados da procissão de nove milhões de eleitores angolanos às urnas, ontem, é razão de uma discreta vigília do outro lado do Atlântico, na qual se uniram o governo Dilma Rousseff, estatais como Petrobras, Eletrobrás, BNDES, empreiteiras, mineradoras, bancos privados, a Central Única de Trabalhadores (CUT), o Partido dos Trabalhadores e o ex-presidente Lula - entre outros. Fizeram apostas nessa eleição, sob a mesma premissa: Angola é a cabeça de ponte de interesses políticos e econômicos brasileiros na África.
Os negócios de empresas do Brasil, somados, equivalem a 10% do Produto Interno Bruto angolano (o PIB saltou de US$ 10 bilhões em 2002 para US$ 110 bilhões no ano passado, na esteira da valorização do petróleo). Lula, com seu instituto, mais a seção internacional do PT e o recém-criado braço externo da CUT projetam uma ação coordenada na África a partir do próximo ano. E preveem começar por Angola, em parceira com o MPLA de Santos.
Santos é expoente da casta de líderes africanos cuja afeição pela monocracia só tem paralelo no desprezo pela democracia. Está ao lado de Teodoro Obiang Nguema (Guiné Equatorial) - a quem Lula costuma se referir como "amigo" -, Blaise Compaoré (Burkina Fasso), Paul Biya (Camarões), Mswati III (Suazilândia), Yoweri Museveni (Uganda) e Robert Mugabe (Zimbábue). Na média, têm mais de um quarto de século no poder.
Santos completou 70 anos de idade na última terça-feira. Já passou quase metade da vida governando um país onde a maioria dos governados morre antes do 51º aniversário. Insatisfeito, moldou esta eleição: aboliu o voto direto para presidente e impôs a regra de que o "cabeça" de lista do partido mais votado será automaticamente presidente eleito. Num toque de ironia, limitou a reeleição (dois mandatos consecutivos, de cinco anos).
Assim, vencendo hoje e a próxima, em 2017, Santos se aposentaria aos 79 anos de idade - depois de 43 anos no poder e com o bônus de chefe de um clã milionário, cujos negócios incluem petróleo, diamantes e fazendas no Brasil. Como em política qualquer plano é tão efêmero com uma onda no mar, Santos viu-se obrigado a gastar os últimos seis meses em negociações no seu partido, para viabilizar a própria eleição. Quase foi atropelado pelo ministro de Estado e da Coordenação Econômica, Manuel Domingos Vicente.
Aos 56 anos, engenheiro, Vicente controla a estatal de petróleo Sonangol, que já presidiu. Ela é responsável por sete de cada dez dólares produzidos em Angola. E é a principal fonte de irrigação do caixa do MPLA. Com os generais Manuel Hélder Vieira Dias Júnior e Leopoldino Fragoso do Nascimento, ele compõe o triunvirato que domina o partido, a burocracia e os negócios estratégicos do país. O trio é sócio na Nazaki Oil & Gaz. Eles se uniram à Cobalt International, de Houston, e agora estão no centro de uma investigação de corrupção promovida pelo Departamento de Justiça e pela agência de fiscalização financeira (SEC) dos Estados Unidos.
Dias atrás, o governo brasileiro soube que o presidente Santos conseguira, finalmente, se entender com o ministro Vicente. Por acordo, Santos se elegeria e renunciaria no final do próximo ano. E Vicente, o vice, assumiria.
Hoje, há duas certezas: 1) Santos deve garantir mais cinco anos de mandato; 2) terá uma oposição crescente, liderada por Vicente dentro do próprio MPLA.
Na periferia política há sinais de uma re-aglutinação de velhos adversários, na órbita da Unita - derrotada pelo MPLA na guerra civil de 1975 a 2002.