Título: O silêncio de Dilma
Autor: Medeiros, Antônio Carlos de
Fonte: O Globo, 01/09/2012, Opinião, p. 23

Apresidente Dilma está em uma encruzilhada entre medidas pontuais e incrementais e medidas estruturais. Entre cuidar das emergências e cuidar das reformas. Este é o coração do dilema brasileiro de hoje. Como avançar? A presidente caminha silenciosamente, mas afirmativamente.

A concertação silenciosa orquestrada por Dilma é um conjunto complexo de modificações de caráter incremental. Aqui e acolá, mas em várias dimensões e setores nacionais, a presidente está mexendo em (quase) tudo. A complexidade das circunstâncias internacionais e os paradoxos e contradições da economia e da sociedade brasileiras circunscrevem o caráter cada vez mais incremental, mas sólido e seguro, da concertação em curso. Eugênio Bucci observou que Dilma fala pelos silêncios e que aos poucos assume sem estardalhaço a autoria de sua práxis, mudando rotinas e até mesmo escala de valores.

As longas turbulências econômicas e financeiras requerem manejo permanente e atuam como condicionantes estruturais. No plano nacional, a heterogeneidade da base política do governo, os profundos conflitos federativos e as expectativas pela manutenção da estabilidade são também poderosos condicionantes.

Há necessidade de superar a recorrência dos gargalos no processo de desenvolvimento brasileiro. Hoje existe um bem-vindo consenso em torno da ideia de que chegou a hora de aumentar a oferta global e a taxa de investimentos, que continua patinando abaixo de 20% do PIB. A melhoria espetacular da inclusão social dos últimos anos aumentou o mercado interno e a demanda global. Mas não se ampliou a oferta global na mesma proporção. O que compromete a continuidade do desenvolvimento. Por isto, logo, logo, a presidente Dilma terá que lidar com temas de reformas estruturais e aumento da produtividade.

Com aprovação recorde, Dilma está "de bem" com a sociedade. Com popularidade para arbitrar conflitos de interesses na base aliada e nos setores empresariais e sociais. É disso que se trata. Por isso penso que há uma concertação em curso. Na economia ela promove gradualmente ajustes relevantes na política econômica, com ênfase no setor produtivo e na inovação. Na sociedade, ela reforça os focos na erradicação da miséria e nas demandas das classes médias.

Na política, Dilma é mais visível. Ela imprime a marca de um presidencialismo de gestão e procura não desconstruir a sua ampla base aliada. Movimentos persistentes. Sem oposição para operar, os dilemas são remetidos para a gestão. Os debates passam para a esfera do desenho e implementação das políticas públicas, o que pode permitir avanços na prestação de serviços e na superação dos gargalos tradicionais nas áreas de infraestrutura e de educação, por exemplo. Enquanto isso, o chamado lulopetismo consolida uma coalizão politicamente hegemônica e agora opera para avançar na cidadela tucana em São Paulo.