Título: Defesa de réus do Rural ataca relator e revisor
Autor: Éboli, Evandro; Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 04/09/2012, O País, p. 5

Advogados insistem na tese de que empréstimos existiram e apresentam hoje novo memorial ao Supremo

um julgamento para a história

BRASÍLIA . Contundente nas críticas aos votos do relator e do revisor do mensalão contra seu cliente, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos elevou o tom e afirmou que os ministros erraram e não falaram a verdade no julgamento que fizeram. Para ele, ao contrário do que argumentaram Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, o ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado não teve participação na concessão de empréstimos a agências de Marcos Valério. Ele disse considerar um exagero julgar fraudulenta a operação por conta de reclassificação de risco do Banco Central.

Bastos e José Carlos Dias, que defende a ex-presidente do Rural Katia Rabello, protocolam hoje memorial enfatizando os pontos que discordam dos votos. Bastos afirmou que já viu defesas reverterem situação nas quais se encontram Salgado e Katia, que têm contra si os votos do relator e do revisor.

- O revisor falou em negligência. Leu trecho do Banco Central que fala em gestão temerária. Ou seja, ficou no limite essa questão de ser fraudulenta ou temerária. E esse tipo de crime, gestão fraudulenta, é contra o sistema financeiro e contra acionistas do banco. O fato é que o Banco Rural passou pelo tufão do mensalão (em 2005), pela crise de 2008 e agora por essa. E continua hígido, não quebrou, não deu prejuízo a ninguém e isso tudo graças a alta qualidade de sua carteira de crédito. Vamos mostrar tudo isso no memorial - disse Bastos, que afirmou ter esperança de convencer os outros nove ministros.

Bastos disse enxergar diferença nos estilos de Barbosa e Lewandowski:

- O revisor é mais analítico, mais doutrinário. Enquanto o relator vai justapondo fatos um atrás do outro.

Dias afirmou que o memorial será curto, com até três páginas, com algumas assertivas. Disse que o propósito é repetir as teses da defesa como se fosse um "mantra":

- Vamos dizer algumas verdades sobre o caso, como a prova de que os empréstimos (feitos ao PT e agências de Marcos Valério) existiram. Vamos repetir como um mantra - afirmou Dias.

Dias reforçará no memorial que Katia não participou da concessão dos empréstimos, mas de apenas duas renovações. Segundo a defesa, o contrato do empréstimo foi assinado quando eram dirigentes do Banco Rural José Dumont e Júnia Rabello, ambos falecidos.

- Não que queremos jogar culpa nos mortos, mas não se pode ignorar essas informações - disse Dias.

Bastos e Dias argumentarão ainda que a direção do banco cobrou, tanto de Valério quanto do PT, o pagamento dos empréstimos.

- Salgado deu uma dura para que pagassem os empréstimos. Renovação não significa recursos novos. É gestão para recebimento do crédito. Se fosse fictício, o banco não teria dado prazo de 90 dias para receber. Daria de um ano - explicou Bastos.

Apesar da anunciada apresentação de mais esse memorial, Márcio Thomaz Bastos afirmou que ninguém mais aguenta esse tipo de recurso.

-É que ninguém aguenta ler mais memoriais - contou Bastos.

O advogado disse ainda que Barbosa, usou acusações que não constaram na denúncia do Ministério Público e que há uma inverdade. Segundo ele, ao contrário do que disse Barbosa, seu cliente participou da autorização do primeiro empréstimo do Rural a Valério.