Título: Com alta disseminada, inflação sobe para 0,57%
Autor: Carneiro, Lucianne
Fonte: O Globo, 06/10/2012, Economia, p. 32
Alimentos e serviços puxam IPCA de setembro
A inflação acelerou em setembro e subiu 0,57%, a maior alta para o mês desde 2003, informou ontem o IBGE. Em agosto, a inflação fora de 0,41%. Com isso, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, usado nas metas do governo), já acumula alta de 3,77% este ano e de 5,28% nos últimos 12 meses. O resultado de setembro foi puxado principalmente pelos preços dos alimentos e veio dentro das expectativas. Porém, analistas destacam que, no mês passado, houve uma alta mais disseminada de preços. O índice de 0,57% também confirmou a aceleração do IPCA nos últimos meses, para um patamar mais elevado, apontam especialistas.
- Os alimentos foram o grande vilão da inflação, mas ela não é só de alimentos. A inflação de serviços continua incomodando e os núcleos estão em nível bastante elevado. A inflação está num patamar alto e daqui para a frente deve ficar nisso - afirmou o economista sênior do HSBC Constantin Jancso, que ontem elevou a projeção para o IPCA em 2012 de 5% para 5,3%.
Os alimentos subiram 1,26% em setembro e responderam por mais da metade (53%) da inflação do mês, com impacto de 0,30 ponto percentual no índice. Este ano, os alimentos já tiveram alta de 6,43%.
- Alguns alimentos tiveram menor produção este ano por causa da redução da área plantada, como é o caso do arroz. Além disso, tivemos a seca, tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos e na Rússia, que impactou de maneira geral os alimentos, como soja e milho - explicou a coordenadora de Índices de Preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos.
Para analista, juros não devem cair mais
Com alta de 2,27% em setembro, o item carnes foi o de maior peso no IPCA, com impacto de 0,06 ponto percentual. O produto foi pressionado pela alta do preço de rações e pela entressafra - com as condições dos pastos piores, o gado demorar mais a engordar. O preço do arroz aumentou 8,21% apenas em setembro, levando a alta acumulada no ano para 18,14%. Já o preço do tomate, que vinha sendo o vilão da inflação nos últimos meses, reverteu a tendência e caiu 12,88% em setembro.
- O que estamos observando agora é o repasse ao consumidor do aumento de custos do produtor da indústria alimentícia. Esse repasse deve continuar em outubro, embora em ritmo menor - disse o economista da Tendências Consultoria Thiago Curado.
Já a alta de preços de produtos não alimentícios passou de 0,27% em agosto para 0,37% em setembro. Entre os principais impactos, estão passagens aéreas (salto de 4,99%), gás de botijão (1,27%) e empregado doméstico (1,24%).
Já os automóveis ajudaram a segurar a inflação, sob influência da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O preço de automóvel novo caiu 0,08% em setembro, após alta de 0,34% em agosto com a expectativa do fim do benefício do imposto menor, o que acabou não se confirmando. O preço de automóvel usado, por sua vez, recuou 1,62% em setembro, após leve alta de 0,15% em agosto.
- É uma alta de preços disseminada e preocupante, que está presente em vários grupos e não é pontual. O que vimos foi uma piora qualitativa no indicador - afirmou a economista da Rosenberg & Associados Priscila Godoy.
- Os últimos dados de inflação indicam que o Banco Central deveria parar sua trajetória de queda de juros - completou Priscila.
Para Thiago Curado, a expectativa é de continuidade de variações elevadas no IPCA como um todo, já que há outros itens além de alimentos contribuindo para isso:
- Além de fatores pontuais, há uma alta de preços disseminada entre os grupos. Existe uma inflação mais persistente, principalmente em serviços.
O índice de preços de serviços foi de 0,51% em setembro, acumulando alta de 6,26% no ano e 8,51% em 12 meses.
- É um cenário de inflação apertado. A pressão de alimentos deve continuar até o fim do ano, ainda que menor. Mas aí deve começar uma pressão mais forte de serviços, influenciada pela recuperação da atividade econômica - completou Priscila.