Título: José Dirceu: fui prejulgado e linchado
Autor: Herdy, Thiago
Fonte: O Globo, 10/10/2012, País, p. 8

Ex-ministro da Casa Civil condenado diz que acatará decisão, mas seguirá "luta para prova sua inocência"

Condenado por corrupção ativa pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu afirmou ontem ter sido "prejulgado e linchado" e que não teve, em seu benefício, "a presunção de inocência". Dirceu diz que continuará a lutar para provar sua inocência e reclamou ter sido condenado em um "juízo político e de exceção". Em carta redigida e divulgada a partir de sua casa em um condomínio fechado de Vinhedo, no interior de São Paulo, o ex-ministro acusa o STF de agir "sob forte pressão da imprensa". E afirma que apesar de acatar a decisão, não se deixará abater.

Interlocutores dizem que é grande a chance de o petista participar hoje da reunião do diretório nacional do partido, em São Paulo, quando poderá ser homenageado. Antes da divulgação da carta, a participação era dúvida pelo temor de se criar fato negativo para a campanha de Haddad ao segundo turno. Coordenadores da campanha do adversário, o candidato José Serra (PSDB), já avisaram que o mensalão será a tônica do seu discurso até o dia da nova votação. Uma postura mais discreta de Dirceu favoreceria Haddad.

A seguir, a íntegra da carta:

"No dia 12 de outubro de 1968, durante a realização do XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, fui preso, juntamente com centenas de estudantes que representavam todos os estados brasileiros naquele evento. Tomamos, naquele momento, lideranças e delegados, a decisão firme, caso a oportunidade se nos apresentasse, de não fugir.

Em 1969, fui banido do país e tive a minha nacionalidade cassada, uma ignomínia do regime de exceção que se instalara cinco anos antes. Voltei clandestinamente ao país, enfrentando o risco de ser assassinado, para lutar pela liberdade do povo brasileiro.

Por 10 anos fui considerado, pelos que usurparam o poder legalmente constituído, um pária da sociedade, inimigo do Brasil. Após a anistia, lutei, ao lado de tantos, pela conquista da democracia. Dediquei a minha vida ao PT e ao Brasil.

Na madrugada de dezembro de 2005, a Câmara dos Deputados cassou o mandato que o povo de São Paulo generosamente me concedeu. A partir de então, em ação orquestrada e dirigida pelos que se opõem ao PT e seu governo, fui transformado em inimigo público numero 1 e, há sete anos, me acusam diariamente pela mídia, de corrupto e chefe de quadrilha.

Fui prejulgado e linchado. Não tive, em meu benefício, a presunção de inocência.

Hoje, a Suprema Corte do meu país, sob forte pressão da imprensa, me condena como corruptor, contrário ao que dizem os autos, que clamam por justiça e registram, para sempre, a ausência de provas e a minha inocência. O Estado de Direito Democrático e os princípios constitucionais não aceitam um juízo político e de exceção.

Lutei pela democracia e fiz dela minha razão de viver. Vou acatar a decisão, mas não me calarei. Continuarei a lutar até provar minha inocência. Não abandonarei a luta. Não me deixarei abater.

Minha sede de justiça, que não se confunde com o ódio, a vingança, a covardia moral e a hipocrisia que meus inimigos lançaram contra mim nestes últimos anos, será minha razão de viver."