Título: Adiar defesa pública não reduz prejuízos
Autor: Farah, Tatiana; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 12/10/2012, País, p. 7

Para cientistas políticos, estratégia petista deve beneficiar campanha

A estratégia petista de adiar a defesa pública dos condenados pelo mensalão pode ajudar o partido no segundo turno das eleições, mas não vai tirar do PT a mácula deixada pelo julgamento do Supremo Tribunal Federal. Nos últimos dois dias, orientados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os petistas decidiram priorizar a disputa nas 22 cidades onde o partido está no segundo turno em vez de fazer desagravos aos ex-presidentes da legenda, José Dirceu e José Genoino, condenados por corrupção ativa.

- Ficar remexendo nisso seria um erro de estratégia do PT. O importante agora para eles é a eleição. Por isso, a estratégia de Lula de cabeça erguida e bola para a frente é a mais adequada - disse o cientista político Carlos Melo, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

Melo avalia, no entanto, que o julgamento traz danos graves ao PT, que ultrapassam os resultados eleitorais.

- O julgamento tem um impacto muito grande. O PT vai precisar se reencontrar. Mas não só o PT. Ele é o mais atingido, mas todos os partidos terão de ficar mais sensíveis para a questão dos financiamentos de campanha - disse Melo.

Para o cientista político Bolívar Lamounier, os petistas só devem responder ao tema do mensalão se forem provocados pelos adversários. Mesmo uma resposta de transformação ética, como a proposta de refundação do partido feita pelo governador Tarso Genro (RS), em 2005, deve ser colocada em banho-maria agora:

- Levantar esse assunto partidariamente coloca a sigla em dificuldade, na linha de tiro.

Lamounier destaca que, apesar de evitar o tema, o PT sai ferido desse julgamento.

- Com a decisão dos ministros, acabou a história de se houve ou não mensalão. Depois das eleições, o partido precisa passar por uma transformação. Ele tem de recuperar sua respeitabilidade.

O cientista político Renato Janine Ribeiro (USP) afirma que, mesmo com o desempenho eleitoral deste ano, no qual cresceu em 12% e obteve vaga no segundo turno de 22 cidades, o PT sofreu danos:

- Seguramente eles perderam votos. Esse julgamento custou votos ao PT, mas não podemos quantificá-los. Ainda é cedo para dizer se ele vai renascer disso, porque a relação da ética com a política é complicada.

Para Janine Ribeiro, o debate do mensalão é "secundário" no segundo turno:

- Mas é difícil levar o debate para as propostas. As campanhas eleitorais têm sido muito baixas. O mensalão vai ser usado da mesma forma que o aborto foi usado na eleição de 2010, embora, em São Paulo, o candidato Fernando Haddad não faça parte desse mesmo grupo que foi condenado.