Título: Estatuto do PT prevê expulsão de quem tiver condenação definitiva
Autor: Farah, Tatiana; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 12/10/2012, País, p. 7

Partido terá que ignorar sua norma se não quiser afastar Dirceu

O PT deve passar por cima de suas próprias regras para não expulsar os ex-presidentes da legenda José Dirceu e José Genoino, condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do mensalão. Pelo artigo 231 de seu estatuto, o partido deve expulsar os filiados que tenham sofrido "condenação por crime infamante ou por práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado". Como o STF é instância final, ao término do julgamento, as condenações transitam em julgado. A direção nacional do PT só quer discutir esse assunto depois das eleições, mas mesmo os grupos adversários de Dirceu no partido já sinalizaram que não devem pedir a expulsão dos dirigentes, nem mesmo a do ex-tesoureiro Delúbio Soares, que chegou a ser afastado na época do escândalo, em 2005, mas voltou a se filiar no ano passado.

- Temos a compreensão de que o caso foi caixa dois. Achamos que esse julgamento tem sido feito em um contexto de extrema politização e, portanto, não vamos atuar nessa direção (de pedir as desfiliações) - disse ontem o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), da tendência Mensagem ao Partido.

Com lideranças como o governador Tarso Genro (RS), a Mensagem é uma das correntes mais críticas a Dirceu e seu grupo, o Construindo um Novo Brasil (CNB), majoritário no partido. Em 2005, quando assumiu a presidência do PT no auge do escândalo, Genro propôs a "refundação" do partido.

Outra tendência adversária da CNB, O Trabalho, também não deve entrar com pedido de expulsão de Dirceu, Genoino e Delúbio.

- Não acredito que alguém, no PT, considere essa medida necessária. Essa sentença do STF é um julgamento político. A expulsão seria aceitar a criminalização do PT - disse Marcos Sokol, membro do diretório nacional.

O coordenador da Comissão de Ética do PT, Francisco Rocha, o Rochinha, disse ao GLOBO que um eventual pedido de expulsão dos dirigentes deverá passar pela análise da Executiva Nacional, que decidiria abrir ou não um processo. Um pedido de expulsão também poderia ser feito diretamente por um filiado do partido, mas, até ontem à noite, nenhum fora registrado.

Dirigentes nacionais não descartam criar exceções à regra no próximo encontro nacional do partido, quando o estatuto deve ser modificado para evitar a expulsão dos ex-presidentes.

- Agora, só vamos falar de eleição - disse o deputado Cândido Vaccarezza, ressoando a orientação partidária de só tratar do tema após o segundo turno.

Em Brasília, o ministro da Secretaria Geral, Gilberto Carvalho, disse que os candidatos que usarem o julgamento do mensalão para atacar os petistas vão se dar mal no segundo turno. Carvalho participou na quarta-feira do encontro da presidente Dilma Rousseff com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Paulo. Mesmo sem entrar no mérito da decisão do STF, o ministro afirmou que os petistas condenados têm o respeito do partido:

- A única coisa que eu posso dizer é que aqueles que têm apostado no uso político de fatos como esse nunca se deram bem. Quem na eleição passada tentou usar temas morais para fazer campanha não se deu bem. O primeiro turno registrou a vitória das forças progressistas do país, e eu acho que isso tem que ser comemorado. Quem for inteligente não vai tentar fazer isso. Se o fizer, a população tem sabedoria para entender que o que vale é a prática de um projeto que está mudando o Brasil, reduzindo a pobreza.

Para Carvalho, a população está preparada para decidir em quem votar com base em projetos para as cidades. Segundo ele, a base aliada saiu vitoriosa no primeiro turno porque as políticas públicas do governo federal estão sendo levadas para as prefeituras.