Título: O silêncio da Assembléia
Autor: Palmares, Gilberto
Fonte: O Globo, 14/10/2012, O Globo, p. 13

Em setembro de 2011, dois meses antes de a presidente Dilma Rousseff sancionar a lei que criou a Comissão Nacional da Verdade, apresentei em parceria com os deputados Luiz Paulo Correa da Rocha, Graça Matos e Paulo Ramos, na Assembleia Legislativa, um projeto (número 889/2011) criando a Comissão da Verdade estadual.

Embora essa tenha sido a primeira iniciativa de uma Assembleia, mais de um ano depois o Rio de Janeiro segue na contramão de estados como São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul, que já estão com suas comissões em pleno funcionamento. Pará e Alagoas devem ser os próximos.

O Rio foi um dos estados mais atingidos pela repressão durante a ditadura militar.

De acordo com o mapa da tortura desenhado pelos pesquisadores do Projeto República, da Universidade Federal de Minas Gerais, dos 82 centros de tortura que funcionaram no regime militar, 13 estavam aqui, no Estado do Rio.

Alguns deles são bastante conhecidos, como o quartel do Exército da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, sede do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), e o Cenimar, o Centro de Informações da Marinha onde foi preso o líder estudantil Honestino Guimarães, até hoje desaparecido.

Outros eram clandestinos, como a terrível Casa da Morte, em Petrópolis, da qual apenas uma presa política saiu com vida - Inês Ettiene Romeu.

Nesses macabros locais, estudantes, sindicalistas, professores, jornalistas, operários e até donas de casa e crianças foram presos. Até hoje, centenas de familiares, filhos, irmãos, pais e mães aguardam uma resposta.

Já os torturadores seguem impunes narrando suas memórias, como o coronel Paulo Malhães, que em entrevista ao GLOBO admitiu sua atuação na Casa da Morte.

Ou o ex-delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) Cláudio Guerra, no livro "Memórias de uma guerra suja", no qual faz revelações sobre a bomba no Riocentro, em 1981, o assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten, em 1982, e conta que incinerou os corpos de dez presos políticos numa usina de cana em Campos.

Em recente audiência pública da Comissão Nacional da Verdade na OAB-RJ, seus integrantes reafirmaram a importância de o Rio ter uma Comissão Estadual.

A OAB pediu ao governador Sérgio Cabral apoio à criação da Comissão. Mas na Alerj insiste-se em negar o quórum necessário para a aprovação da lei.

Desde que o projeto foi apresentado, apenas um deputado manifestou-se explicitamente contra ele.

No entanto, a cada vez que o projeto retorna à pauta de votação, o boicote se revela. Na tarde de quarta-feira, dia 10 de outubro, pela quinta vez deputados se ausentaram do plenário impedindo o quórum necessário (36 presentes) para votação do projeto. Afinal, o que temem?

Na ditadura, o povo do Rio de Janeiro não se escondeu. Enfrentou a repressão, foi para as ruas e praças, desafiou tanques e armas.

Em pleno estado democrático, é inadmissível que a Assembleia Legislativa, a casa do povo, se recuse a contribuir para o resgate da verdade.