Título: Parcerias com empresas reforçam a Embrapa
Autor: Ribeiro, Fabiana
Fonte: O Globo, 15/10/2012, Desafios Brasileiros, p. 10

A inovação passa pelo conhecimento, próprio ou de terceiros. Com essa filosofia, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), referência internacional em pesquisa no campo, contribuiu - e muito - para fazer do Brasil uma potência agrícola. A estatal e seus pesquisadores se abrem a outras instituições, universidades e empresas. Dessas parcerias, saem sementes, estudos de solo, soluções para pragas e novos processos, que alavancaram a produtividade da agropecuária brasileira nas últimas décadas.

Tem a ver com o trabalho da Embrapa o aumento da produtividade do arroz e do milho, de 351% e de 304%, respectivamente, de 1975 a 2010. Assim como passa pela pesquisa da estatal o aumento da produção de grãos, de 228%, entre 1977 e 2011.

- Esse aumento da produtividade certamente tem a ver com a Embrapa, que monta seu plano de inovação a partir de alianças estratégicas - resume Filipe Teixeira, chefe da Assessoria de Inovação Tecnológica da Embrapa, que tem parcerias com empresas como Vale, Petrobras e Natura.

Dos cerca de 9.500 empregados da estatal vinculada ao Ministério da Agricultura, 2.300 - mais de 2 mil com doutorado - são pesquisadores de 47 unidades. Desses laboratórios saem projetos que vão da soja transgênica ao algodão orgânico. São pesquisas que, muitas vezes, ganham fama mundial, como os trabalhos em biocombustíveis, citados por publicações estrangeiras. Inovações que permitiram a criação de mais de 75 mil postos de trabalho, apenas em 2011.

Atualmente, a Embrapa dá prioridade a áreas como agroenergia, sustentabilidade, pragas e doenças, e melhoramento genético de, por exemplo, milho, soja, algodão e mandioca

- A cada um real investido pela Embrapa, são gerados R$ 8,6 para a sociedade. Em 1997, eram R$ 3,6. O esforço tecnológico da Embrapa, junto com outras instituições, fez o Brasil sair de importador para exportador de alimentos - diz José Eustáquio Vieira Filho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

No ano passado, foram fechados 472 contratos de transferência de conhecimento, uma máxima histórica, e a Embrapa recebeu 93 prêmios.

E não são só as grandes safras que se beneficiam das inovações: a agricultura familiar está no foco.

- Se a Embrapa não olhasse para esse contingente de produtores, como muitos críticos insistem em dizer, não investiria em feijão transgênico ou hortaliças - afirma José Eustáquio, do Ipea.

No Rio, a Embrapa criou um projeto-piloto para aproveitar 100% do maracujá. Da casca e da semente saem farelo e óleo, usados na indústria cosmética e em tratamentos fitoterápicos, conta o pesquisador Sergio Cenci.

Mas nem tudo são flores. O orçamento da Embrapa é curto. Neste ano, o repasse da União foi de pouco mais de R$ 2 bilhões - valor praticamente estagnado nos últimos anos, o que, segundo fontes, trava o desenvolvimento de vários projetos no país.

sindicato critica foco nas corporações

Vicente Almeida, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (Sinpaf), afirma que as parcerias da Embrapa com o setor privado vêm mudando o perfil da estatal, com o foco passando de produtores e consumidores para as grandes corporações.

- A prioridade da Embrapa mudou. As empresas não têm compromisso com o desenvolvimento da região, são como nuvem de gafanhotos: vêm, consomem e vão embora.

Uma das consequências disso, segundo ele, é a queda significativa da participação da Embrapa no mercado de sementes e mudas. Mas especialistas acreditam que isso tem a ver com a falta de apoio do governo, tornando inviável que a Embrapa concorra com multinacionais. Alguns defendem a privatização, mas há quem discorde:

- A Embrapa ajuda a difundir conhecimento, tecnologia. Privatizada, esse papel perderia o objetivo. Quem perde é o país - diz José Eustáquio. - A agricultura ainda é muito concentrada: 0,5% dos estabelecimentos agropecuários, os mais ricos, detêm 49% da produção nacional. E 70%, os mais pobres, respondem por apenas 3,9% da produção. Os desafios são enormes para corrigir essas distorções.