Título: Cidade boliviana junto à fronteira já perdeu 30% da população
Autor: Valente, Gabriela
Fonte: O Globo, 14/10/2012, Economia, p. 25
Coiote brasileiro tem extensa ficha criminal e não é importunado por policiais.
Em San Matías, cidade boliviana muito próxima da fronteira com o Mato Grosso, as ruas estão cheias de casas vazias. A autoridade local diz que 30% dos moradores foram embora à procura de uma vida melhor no Brasil. Muitos saíram por conta própria, fugindo da pobreza extrema. Outros foram agenciados por coiotes, que, além de cruzarem a fronteira ilegalmente com os imigrantes, servem de intermediários na contratação deles por empresas brasileiras, normalmente em subempregos.
O coiote mais conhecido da fronteira Brasil-Bolívia - que conversou com O GLOBO sob a condição de anonimato - tem uma ficha criminal extensa. É um brasileiro que já foi condenado a dois anos de prisão por trazer estrangeiros ilegais ao país. Responde por crimes como importação de mercadoria contrabandeada, sonegação, receptação de produto roubado, evasão de divisas, adulteração de chassis de veículo, declaração falsa em processo de imigração e associação ao tráfico internacional de drogas. Mesmo assim, tem quatro empresas, de produtos agrícolas a comércio exterior.
Ele diz com orgulho que não tem inimigos. E dá para perceber. Depois de cinco tentativas, o coiote concordou em falar sobre a sua atividade, logo após passar com sua caminhonete de luxo importada abarrotada de bagagem pela fronteira sem ser importunado pelos policiais brasileiros, que tinham se mostrado minuciosos na vistoria de outros veículos.
- Só anda aqui quem sabe andar. Quem denuncia morre - avisa.
"A falta do estado é grande"
Conhecido por todos, o coiote transita entre os policiais com desenvoltura. É a lei do toma lá, dá cá: alguns contam que ele já ajudou até a encontrar carros roubados de autoridades brasileiras que foram parar na Bolívia.
Ele aproveita as férias escolares para atravessar os imigrantes. Nas viagens de ida e volta dos muitos brasileiros que estudam medicina em Santa Cruz, na Bolívia, os ilegais se misturam aos universitários. O coiote os instrui a darem sempre a mesma resposta se abordados: que se regularizarão como imigrantes em Cáceres. Como fica a cem quilômetros do posto de checagem, ninguém garante que o imigrante realmente irá para lá.
- Nosso efetivo é pouco e não tem como acompanhar - lamenta o cabo Lino, que trabalha no posto policial.
- Fica a cargo da pessoa se registrar ou não - diz a coordenadora do Comitê de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do estado, Dulce Regina Amorim. - Nosso estado é muito grande, e a falta dele também.
Muitos imigrantes levados por agenciadores se arrependem. O professor de francês Monestine Clércius deixou o Haiti e agora trabalha como pedreiro em Cuiabá. Em seu país, deixou mulher e três filhos: - Não valeu a pena.