Título: Um mesmo destino para muitas diásporas
Autor: Valente, Gabriela
Fonte: O Globo, 14/10/2012, Economia, p. 25

PROSPERIDADE: Sonho de vida melhor atrai chineses, bolivianos, haitianos, colombianos, africanos e até árabes que entram no país por diferentes regiões.

Dois séculos depois do primeiro grande fluxo de imigração, quando alemães, italianos e japoneses aportaram no país para o trabalho nas lavouras de café, o Brasil vive uma nova onda de imigração, considerada pelo governo a maior de todas. Os imigrantes entram no país por várias regiões, do pampa gaúcho ao Nordeste, passando pela selva amazônica e pelo Centro-Oeste. Bolivianos cruzam a fronteira com os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, mas a rota tem chamado a atenção das autoridades porque é porta de entrada para muitas outras nacionalidades, como para chineses, que chegam a Cáceres, após passar pelo Peru e pela Bolívia.

No Nordeste, os imigrantes chegam em Recife e em Fortaleza de navio e de avião. O destino mais comum é São Paulo, para onde vão em busca de uma vida melhor. Já os africanos aportam em Salvador. São clandestinos em grandes embarcações. Alguns morrem na travessia. Árabes imigram por Cáceres e por Foz do Iguaçu (PR) e seguem pelo interior do país até Brasília, Goiânia ou a capital paulista, que também é o destino predileto de colombianos. Mulheres da Colômbia disputam salários de empregadas domésticas mesmo com currículos de psicólogas ou engenheiras.

Coiotes desviam rotas

Os haitianos tomaram o Acre. Entram, principalmente, pela cidade de Brasiléia. Porém, como houve um reforço específico nessa fronteira, os coiotes desviam os imigrantes que, agora, passam pela Bolívia e ingressam no país pelo Mato Grosso. No início do ano, um grupo de 40 haitianos chegou ao Mato Grosso atraído pela promessa de trabalho. Foram contratados em janeiro e demitidos em abril. Depois do fim do contrato, eles se separaram. Um agenciador chegou a oferecer os trabalhadores às empresas do consórcio responsável pelas obras do estádio Arena Pantanal para a Copa do Mundo. A proposta foi recusada.

O boliviano Roberto Carlos Garnica, de 27 anos, mal se formou em Santa Cruz de la Sierra e já deu a entrada na papelada para exercer a medicina no Brasil. Sonha com os R$ 15 mil que ganha um cirurgião por aqui. Foi como camelô em Cáceres que seu pai conseguiu pagar a faculdade de cinco filhos: três deles escolheram a medicina, muito comum nas famílias bolivianas. O curso é barato: US$ 150 por mês. Por isso, muitos brasileiros fazem o caminho inverso e vão estudar medicina em Santa Cruz. Garnica se assusta com os preços do curso no Brasil.

- São R$ 3 mil por mês? Meu Deus! Com US$ 3 mil (cerca de R$ 6 mil), na Bolívia, é possível quitar o curso inteiro - informa.

Ao lado dele, na barraca que vende falsificações, trabalha uma outra boliviana que, por ironia, se chama Lady Laura. Ao contrário da canção do Rei, é ela que está longe de casa:

- Na Bolívia, não tem trabalho e aqui tem fábrica e restaurante para as pessoas trabalharem. O Brasil valoriza mais as pessoas - conclui.

Coiotes receberiam R$ 15 mil por clandestinos

A nova rota do Mato Grosso entrou no radar das autoridades, e o governo incluiu Cáceres na Operação Ághata da Polícia Federal, que deve durar mais duas semanas. É por lá que entra a maioria dos imigrantes ilegais bolivianos.

- Eles são vendidos para a indústria e a mão de obra é comercializada. Os coiotes vendem (trabalhadores) para as indústrias de fundo de quintal - diz Átila Calonga, do Comitê de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do estado.

- Tem coiote que enche o ônibus de bolivianos ao prometer melhores condições de vida. Eles acabam confinados em apartamentos pequenos - afirma a relatora da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado que investiga o tráfico de pessoas, Lídice da Mata.

Ela defende a regularização de todos os ilegais que chegam ao país para acabar com o trabalho dos coiotes. O argumento é que o país não pode acolher o engenheiro europeu e expulsar o colombiano pobre. Há relatos da Polícia Federal de que coiotes recebiam R$ 15 mil para atravessar chineses na fronteira.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, é frontalmente contra a proposta. Apesar de o Brasil ter a tradição humanitária de acolher as pessoas, ele defende um mínimo de controle:

- O Brasil nos últimos anos passou a ser um país muito procurado pelas oportunidades de emprego e pelas alternativas que oferece. Se, no passado, os brasileiros procuravam outros países, agora a gente vê o inverso.