Título: Fecundidade cai em todas as regiões e raças
Autor: Duarte, Alessandra; Benevides, Carolina
Fonte: O Globo, 18/10/2012, Economia, p. 35

Censo aponta queda ainda em todos os graus de escolaridade; redução maior foi entre mulheres pretas

Filha de Ana Maria de Freitas Tavares, de 64 anos, que teve 11 filhos, a pernambucana Ieda de Freitas, 39, é o retrato da diferença de tamanho das famílias brasileiras. Mãe de duas meninas, ela engravidou cedo, aos 16 e 17 anos, mas aos 19 decidiu que não teria mais filhos. Moradora da Favela do Pilar, em Recife, Ieda criou as meninas sozinha. Das duas, uma já casou, também só tem dois filhos e não quer mais. A outra não pretende ter nenhum.

- Tinha muito menino dentro de casa para minha mãe dar atenção. Mas hoje ninguém é mais ingênuo, só tem filho quem quer - diz Ieda.

Segundo o IBGE, no Brasil, a taxa de fecundidade registrada em 2010 é menor do que a registrada em 2000 em todas as regiões, todos os graus de escolaridade e grupos raciais. Mas as maiores quedas aconteceram entre as mulheres pretas no Nordeste (29,1%), Norte (27,8%) e Sul (25,3%).

Professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence/IBGE), o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves afirma que a taxa de fecundidade caiu justamente onde era mais alta, tanto espacialmente, nas regiões do país, quanto em relação a renda e cor das mulheres:

- Há uma tendência à convergência das taxas no país. As taxas no Sudeste e no Sul, por exemplo, começaram a cair no fim da década de 60, enquanto no Norte e no Nordeste elas só começaram a cair nos anos 80. A divergência foi maior nos anos 70, mas a partir dos 80 veio a convergência. O Sudeste vai continuar a cair, mas num ritmo menor.

- O provável é que a taxa não suba mais, assim como a tendência é que as regiões não tenham mais tanta disparidade. Conforme as mulheres forem ficando mais instruídas e ocupem mais cargos no mercado de trabalho, elas vão adiando a maternidade e tendo menos filhos - diz Fernando Albuquerque, gerente do projeto Dinâmica Demográfica do IBGE.

Demógrafa do Núcleo de Estudos de População da Unicamp, Glaucia Marconde concorda que as diferenças devem diminuir:

- Acredito que não vai mais importar o grau de escolaridade. A tendência que a gente observa é que as famílias serão pequenas independente da classe econômica e do quanto estudaram.

Mulheres mais pobres têm mais filhos

Ainda que a taxa tenha caído, o Censo mostra que ainda há distância entre o número de filhos quando são consideradas as mulheres nos extremos das faixas de renda (3,9 filhos para as que ganham até 1/4 de salário mínimo; 0.97 filho para aquelas com mais de 5 mínimos). No entanto, mulheres em idade fértil e que ganham até 1/4 de salário mínimo representam 2,35% do total dessa população.

De acordo com Eustáquio, apesar de estar havendo queda também entre as mais pobres, o que ocorreria em muitos casos é uma "reprodução do ciclo da pobreza", o que impediria uma queda maior:

- Faltam a mulheres mais pobres mais acesso a serviços de Saúde e políticas de planejamento. Uma menina que engravida na adolescência compromete sua possibilidade de sair da pobreza, que vai, por sua vez, estimular que continue sem acesso a esses serviços. Nesse sentido, a política de transferência de renda do Bolsa Família, apesar de ter um desenho pró-natalista, estimula a queda de fecundidade ao estimular acesso a renda e educação - diz Eustáquio.

Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri diz que a queda na fecundidade é uma "revolução cultural":

- O interessante é que a queda não é imposta como na China. Mas, tendo menos filhos, a criação dessas crianças pode ter mais qualidade, vai haver menos pressão demográfica e isso impacta na taxa de mortalidade também.

De acordo com o Censo, em 2010, as mulheres tinham 1,90 filho, taxa abaixo do nível de reposição, que é de 2,1 filhos e garante a substituição das gerações. Em 1960, eram 6,28 filhos por mulher.

- Por causa disso, o que se precisa discutir é até quanto vai cair essa taxa de fecundidade no país. Com a taxa atual, que já está abaixo da taxa de reposição, a população do Brasil não cai por motivos como o fato de a estrutura etária brasileira ainda ser relativamente jovem. Mas isso pode mudar com o envelhecimento da população. O Ipea acabou de lançar um estudo mostrando que, mantida essa taxa atual, a população brasileira começa a diminuir em 2030 - avalia Eustáquio.