Título: Vitória com efeito incerto
Autor: Godoy, Fernanda
Fonte: O Globo, 24/10/2012, Mundo, p. 29
Obama é apontado como vencedor do debate, mas impacto sobre eleitorado divide analistas.
As pesquisas instantâneas, concluídas após o encerramento do debate, na noite de segunda-feira, deram a vitória ao presidente Barack Obama: 48% a 40%, segundo a CNN, e 53% contra 23%, conforme enquete da CBS com indecisos. O placar da série de três debates presidenciais fechou em 2 a 1 para Obama de acordo com sondagens e avaliações de analistas, mas ainda não se sabe se a virada do democrata foi suficiente para conter a subida de Romney, que ganha terreno desde a vitória contundente no primeiro debate.
Ontem, sem que as pesquisas de intenção de voto tivessem captado efeitos do último confronto - visto por 59,2 milhões de pessoas, segundo a Nielsen -, Romney continuava com pequena vantagem, com 47,9%, contra 47,2% de Obama, segundo a média do site Real Clear Politics. Alguns analistas avaliam que o presidente foi bem-sucedido em sua estratégia de mostrar Romney como um político inconstante e pouco confiável, que muda de opinião a todo momento, de acordo com a conveniência política. Obama insistiu nessa linha ontem, em comício na Flórida.
- Estamos acostumados a ver os políticos mudarem de opinião em relação a quatro anos atrás. Não estamos acostumados é a ver políticos mudarem de opinião em relação a quatro dias atrás. Não há assunto mais importante numa campanha do que a confiança. Temos que ter confiança em que a pessoa que lidere o país diga o que pensa.
Estratégia "paz e amor"
O presidente tentava faturar os diversos recuos de Romney, que no debate concordou com a decisão de Obama de marcar para 2014 a retirada das tropas americanas do Afeganistão, embora há poucos dias tenha dito que era um erro fixar uma data. Romney também apoiou Obama na decisão de entrar no Paquistão para matar Osama bin Laden, na retirada do apoio americano ao ditador egípcio Hosni Mubarak, e em vários outros pontos da política externa dos EUA nos últimos quatro anos, o que levou Obama a acusá-lo, ontem, de ter tido outro ataque de "Romnésia", esquecendo-se das críticas anteriores.
Observadores do debate acreditam, no entanto, que Romney optou deliberadamente por uma estratégia "paz e amor", evitando confrontos diretos com o presidente e, principalmente, evitando cair na armadilha de parecer belicista aos olhos dos indecisos, especialmente as mulheres, particularmente contrárias à ideia de operações militares americanas na Síria ou no Irã.
- Romney adotou uma "empatia" estratégica. Ele sabia que não tinha como vencer na discussão de conteúdo - disse Alan Schroeder, analista e autor de um livro sobre os 50 anos de debates presidenciais na TV americana, à CNN.
Romney e seu companheiro de chapa, Paul Ryan, retomaram a campanha ontem em Nevada, outro dos estados considerados ainda em disputa.
- Ataques contra mim não são uma agenda - disse Romney, repetindo sua frase de contra-ataque do debate.
Segundo pesquisas do American Research Group divulgadas ontem, Obama lidera em Nevada (49% a 47%) e Romney, em New Hampshire (também por 49% a 47%). Os candidatos iniciaram novas turnês pelos swing states . Romney se concentra nos estados mais a oeste: Nevada, Colorado e Iowa. Obama fará um giro de 48 horas por Colorado, Nevada, Flórida, Virgínia e Ohio, terminando a semana com um comício em New Hampshire no sábado.
Para Stuart Stevens, estrategista de campanha de Romney, haverá um foco grande em Ohio, considerado o mais decisivo dos estados. Atento a isso, no debate, Romney tentou reescrever a História, afirmando que havia defendido o resgate da indústria automobilística em 2008 e 2009. A operação, iniciada pelo ex-presidente George W. Bush e consolidada por Obama, é o tema-chave da campanha em Ohio e em outros estados do Meio-Oeste, onde mais de 10% dos empregos são ligados à indústria automobilística. Mas em novembro de 2008, Romney explicitou sua opinião no artigo "Deixem Detroit ir à falência", publicado no "New York Times".