Título: Propina de R$ 800 mil levou para a cadeia o poder em Guapimirim
Autor: Araújo, Vera; Maltchik, Roberto
Fonte: O Globo, 20/10/2012, País, p. 4
Suborno de delegado infiltrado permitiu caracterização de três crimes.
No último dia 5 de setembro, uma ação coordenada entre o Ministério Público Estadual e agentes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas (Draco) desbaratou o que os próprios investigadores classificaram como "o mais absurdo caso de corrupção" revelado no estado do Rio nos últimos anos. Para fazer funcionar uma engrenagem acusada de desviar cerca de R$ 48 milhões dos cofres públicos em Guapimirim, na Região Metropolitana, num único lance, o grupo pagou R$ 800 mil de propina a um delegado. Mal sabia que o agente estava infiltrado, com autorização da Justiça.
Dessa vez, a corrupção levou para a cadeia prefeito e secretários do Executivo. Só o presidente da Câmara, Marcelo Prado Emerick, o Marcelo do Queijo, escapou e, até hoje, está foragido. Para o desembargador Luiz Noronha Dantas, do Tribunal de Justiça do Rio, era imprescindível "neutralizar as raposas dentro do galinheiro".
- Esse foi o primeiro caso em que um desembargador de TJ autorizou que um delegado se infiltrasse na organização criminosa. O oferecimento de R$ 800 mil para um delegado da Draco não investigar o prefeito e os vereadores é o mais absurdo caso de corrupção que já vi - disse o promotor criminal Décio Alonso Gomes.
prova incontestável
Acostumada a resolver tudo à base da corrupção, a quadrilha formada pela cúpula do Executivo e do Legislativo tentou encerrar as investigações sobre o caso. Ao simular a negociação e o recebimento de uma propina de R$ 800 mil, o delegado Roberto Leão produzia uma imprescindível prova contra o bando para caracterizar corrupção ativa, peculato e formação de quadrilha.
Leão negociou com o próprio presidente da Câmara dos Vereadores, Marcelo do Queijo (PPS), e o secretário de Administração, Governo, Habitação, Agricultura e Pecuária, Isaías da Silva Braga. Os R$ 800 mil foram entregues numa sacola, num posto de gasolina pertencente à família do então prefeito Renato Costa Mello Júnior, o Júnior do Posto (PTC), três meses antes de a prisão deles ser decretada, em setembro. O dinheiro se encontrava úmido e com cheiro de esterco, indicando que estaria enterrado num estábulo.
Segundo o Ministério Público Estadual, o grupo tinha como chefe o próprio prefeito. O bando ainda investia na candidatura de Ismeralda Rangel Garcia da Costa para suceder a Júnior do Posto. Não à toa, a operação foi denominada "Os intocáveis".
Com exceção de Marcelo do Queijo, os demais integrantes do bando estão presos desde o mês passado, graças a um trabalho articulado entre a Draco, a Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança do estado e dos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP. O grupo é acusado ainda de corrupção passiva, ameaça, falsidade ideológica e coação de testemunhas no curso da ação.
Desvio de R$ 1 milhão por mês
De acordo com o MP, a quadrilha formada por 16 pessoas desviava em média R$ 1 milhão por mês dos cofres do município, por meio de fraudes em licitações e compras superfaturadas, além da contratação irregular de sete empresas. Uma delas, ligada ao ramo de transportes, alugava por R$ 7 mil mensais um Kadett ano 1993.
Policiais encontraram no gabinete do presidente da Câmara dos Vereadores uma espécie de tabela, com os percentuais de ágio exigido pelos integrantes do bando, que variavam de 20% a 40%. Segundo a polícia, os envolvidos chegaram a oferecer R$ 20 mil por mês à Draco, caso Ismeralda fosse eleita.
A candidata desistiu de concorrer uma semana antes das eleições, embora tenha insistido em manter a campanha mesmo depois de presa.
- Agora, esperamos a defesa prévia para a abertura da ação penal - explica Décio Alonso Gomes.