Título: Lucro da Vale cai 57,8%
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 25/10/2012, Economia, p. 29

Queda no preço do minério de ferro e pagamento de royalties afetam ganhos da empresa

Efeito da crise

A queda no preço do minério de ferro no mercado internacional, por conta da crise global, e o provisionamento de recursos para o pagamento de royalties fizeram a Vale registrar queda de 57,8% em seu lucro líquido no terceiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2011. Entre julho e setembro, o ganho da mineradora somou R$ 3,328 bilhões, contra os R$ 7,893 bilhões de um ano antes. Em dólar, o lucro foi de US$ 1,669 bilhão, tombo de 66,2% em relação ao mesmo período de 2011. Em comparação ao segundo trimestre, a queda foi de cerca de 37% nas duas moedas.

Apesar de ruim, o resultado já era esperado por analistas de mercado, que projetavam lucro entre R$ 2,8 bilhões e R$ 4 bilhões para o período. Em um ano, o preço do minério de ferro acumulou queda superior a 50%. Além disso, dizem os especialistas, diante da crise internacional, a Vale ainda teve de conceder um desconto adicional ao vender a commodity aos seus clientes, prejudicando ainda mais o resultado. Em comunicado, a companhia diz apenas que a cotação do minério caiu US$ 23,6 por tonelada.

A retração no preço do minério afetou também a receita operacional da mineradora, que caiu 18,8%, para R$ 22,241 bilhões, em comparação ao terceiro trimestre de 2011. Em dólar, no mesmo período, a receita chegou a US$ 10,963 bilhões, um recuo de 34,5%.

Empresa já interrompe operações

Em comunicado, a Vale mostrou preocupação com o cenário global. Disse que a expansão, impulsionada pelas economias emergentes, "deve ocorrer em ritmo moderado". Para a China, a Vale prevê um crescimento anual entre 6% e 7% até o fim desta década. A mineradora afirmou ainda que o modelo de crescimento do país asiático deve ser alterado, "com menor relevância para o investimento e maior para o consumo". Assim, a importância da China na receita operacional da companhia caiu de 37% para 32% no último ano. Por outro lado, a fatia do Brasil pulou de 17,8% para 21,4% no mesmo período.

Como forma de driblar o menor consumo global, a Vale ressaltou que vai reduzir seus custos e aumentar sua produtividade. Entre as suas ações, está a interrupção temporária de três usinas de pelotização no Brasil, como forma de "acomodar o efeito do enfraquecimento cíclico da demanda". A empresa ainda não fala em demissões, mas disse que haverá uma realocação de pessoal para outras atividades.

Menos investimentos com pesquisa

No terceiro trimestre, os custos e as despesas somaram R$ 12,365 bilhões, alta de 22,24% em relação ao mesmo período do ano passado. O avanço foi motivado pela provisão de R$ 1,1 bilhão que a empresa fez para uma eventual derrota na batalha judicial que trava com o Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM) pelos royalties da mineração.

- O resultado veio fraco, como já se esperava. O preço baixo do minério é o principal baque para a companhia. E, com o mercado mais apertado, as mineradoras têm de dar desconto na hora de vender o minério. Há ainda as provisões para o pagamento de royalties - disse Pedro Galdi, analista da corretora SLW.

A Vale frisou que vai reduzir seus gastos com pesquisa e desenvolvimento para ter um número menor de projetos que possibilitem uma taxa maior de retorno. Por isso, vai direcionar seus esforços para o aumento da capacidade de produção em Carajás, no Pará, e Moatize, em Moçambique. Houve redução de 5,3% nos investimentos no terceiro trimestre deste ano, frente a igual período de 2011, para R$ 4,289 bilhões.

Por outro lado, a Vale diz que nos primeiros nove meses do ano os investimentos subiram 8,4% em relação ao mesmo período de 2011.

Minério mais barato e as provisões para o pagamento de royalties também atingiram em cheio a geração de caixa da companhia, que caiu de R$ 15,688 bilhões, no terceiro trimestre de 2011, para R$ 7,581 bilhões - uma queda de 51,6%. Com isso, a Vale diz que está "utilizando o balanço de maneira mais moderada no curto prazo, com o financiamento de investimentos e a distribuição de dividendos". Analistas acreditam que a mineradora pode reduzir ainda mais o pagamento de dividendos a seus acionistas.

- A Vale vai ter que explicar o pagamento de dividendos melhor. O mercado está em dúvida. A empresa emitiu papéis no exterior, obteve financiamento do BNDES e de outras agências - lembrou um analista que não quis se identificar.

A empresa também chega ao fim de setembro mais endividada. Sua dívida bruta chegou a US$ 29,211 bilhões, alta de 27,07% frente ao terceiro trimestre de 2011. Apesar do avanço, a Vale ressaltou que o nível de alavancagem é baixo.

- No início do ano, foram as chuvas que afetaram o resultado. No segundo trimestre, a alta rápida do dólar. Agora foram os preços do minério. A situação não está nada confortável para a companhia - pontuou um analista.