Título: Mais de 31% não participaram da eleição em SP
Autor: Costa, Mariana Timóteo da
Fonte: O Globo, 29/10/2012, País, p. 5

Abstenção é a maior desde 1988; PT triunfa na periferia em votação polarizada.

Na eleição que deu vitória a Fernando Haddad, chama a atenção a quantidade de eleitores que não votou em ninguém: juntando os votos brancos (4,34%), nulos (7,26%) e a abstenção que, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), foi de 19,9%, conclui-se que mais de 31% do eleitorado paulistano não participaram da escolha do novo prefeito de São Paulo.

A abstenção foi a maior desde 1988 - 1,72 milhão não votou, confirmou o TRE. O primeiro turno já havia registrado recorde de abstenção (18,48%). Segundo declarou o juiz Henrique Harris Júnior, da 1ª Zona Eleitoral e responsável pela eleição na capital, "esse número não é irrelevante e ainda será objeto de muitas análises".

Razões para isso, de acordo com analistas, seriam um desencantamento do eleitorado, o forte calor - que também bateu recorde ontem, chegando a mais de 35 graus em São Paulo - e problemas de recadastramento eleitoral.

Com 100% das urnas apuradas, Haddad obteve 55,57 % dos votos válidos, contra 44,43 % de José Serra. Foram mais de 3,3 milhões de votos para o candidato do PT contra mais de 2,7 milhões para o tucano.

A eleição de ontem também confirmou a polarização do gigantesco mapa eleitoral de São Paulo, a cidade com maior PIB (R$ 389 bilhões) e orçamento do Brasil (R$ 38,7 bilhões).

Assim como no primeiro turno, o voto no PT predominou na periferia, e o no PSDB nas zonas expandidas do Centro. O próprio Haddad, em seu discurso de vitória, ressaltou essa polarização, prometendo, no entanto, unir a cidade.

PARELHEIROS x JARDIM PAULISTA

Quarenta quilômetros separam o Jardim Paulista , onde Serra foi o mais votado, com 77,67% da preferência, de Parelheiros, bairro do extremo sul, onde Haddad obteve sua maior vitória, com 83,5% dos votos. Em Parelheiros, onde vivem cerca de 150 mil pessoas, percebe-se claramente a forte rejeição ao PSDB.

- Os tucanos e seus aliados, como o Gilberto Kassab, só governam para os ricos. Aqui, tudo de bom que temos, desde o asfalto nas ruas aos pontos de ônibus e o pronto socorro, foi o PT quem deu. A (Luiza) Erundina, a Marta (Suplicy). Por isso quero o Haddad na prefeitura - diz o pedreiro José Barbosa, de 63 anos, para quem questões como o mensalão "são uma bobagem porque todo o mundo rouba mesmo".

Marco Antônio Teixeira, do departamento de Gestão Pública da FGV, diz que a campanha marcada por agressões impediu a discussão de questões de maior relevância.

- Serra deu um tiro no pé ao achar que com agressões atrairia um eleitor mais conservador, que no primeiro turno deu votos ao Russomanno. Mas o eleitor pouco se importou - acredita Teixeira, para quem, ao atacar pessoalmente Haddad, Serra perdeu a chance de mostrar aos eleitores a sua experiência de gestor público.

O cientista político lembra que, ao contrário da Zona Sul do Rio, o eleitor das classes mais altas de São Paulo é mais conservador e tem um "preconceito histórico com o PT que, por sua vez, tem base sólida nos movimentos sociais característicos da periferia".

Periferia esta que, percorrida com exaustão por Haddad e Lula, fez com que o PT voltasse ao poder, após oito anos, na maior cidade do país.

Com índice de rejeição elevado, Serra não conseguiu repetir o bom desempenho que teve no primeiro turno de 7 de outubro, quando chegou em primeiro lugar com 30,75 % contra 28,98% de Haddad.

Se o eleitor se dividiu basicamente entre quatro candidatos no primeiro turno - além de Serra e Haddad, Celso Russomanno (PRB) e Gabriel Chalita (PMDB) tiveram votações expressivas -, o desempenho do PT cresceu num segundo turno que foi marcado por agressões entre os dois candidatos, tanto nas ruas quanto nas propagandas e nos debates da TV.

PESADA troca de acusações

Temas como o kit gay (material anti-homofobia proposto por Haddad enquanto ministro da Educação) e o julgamento do mensalão foram insistentemente explorados e criticados por Serra, que chegou a chamar Haddad de "delinquente". O petista acusou o tucano de estar "obcecado" com a questão do mensalão, alegando que "o desrespeito" do tucano chegava "às beiras da insanidade".