Título: Nova vitória do mais poderoso dos padrinhos
Autor: Lima, Maria
Fonte: O Globo, 29/10/2012, País, p. 8
Lula ganha aposta em Haddad e já prepara nova cartada para 2014.
Foi uma jogada ousada, mas o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sai como o grande vitorioso, o padrinho mais bem-sucedido, destas eleições. O grande feito de Lula, apontado por cientistas políticos, foi brigar por um candidato novato e desconhecido na principal capital do país, contra a "candidatura natural" da senadora Marta Suplicy, a resistência inicial de setores do PT e o desgaste do julgamento do mensalão. Até aliados reconhecem que foi uma jogada arriscada impor um candidato novato que empacou em 3% nas pesquisas de intenção de votos até a metade da campanha. Os petistas dizem que não interessa se Lula e a presidente Dilma Rousseff perderam a guerra em disputas acirradas com o PSDB em outras capitais, pois a única coisa que interessava mesmo era conquistar a joia da coroa: a São Paulo dos tucanos.
Com a vitória em São Paulo, Lula usará o ex-reduto tucano como um quartel-general para, a partir de hoje, iniciar as suas novas missões: reestruturar o PT pós-mensalão, preparar um novo "poste" para disputar o governo de São Paulo, curar feridas da base e preparar a sucessão presidencial de 2014, com ele ou com a reeleição da presidente Dilma Rousseff.
- Na capital mais cobiçada, Lula fez sua jogada mais ousada, confirmando sua intuição de que o PT tem de seguir renovando nas próximas eleições. Depois do mensalão e de tudo que aconteceu, o PT nunca precisou tanto de Lula como agora. A vitória em São Paulo foi boa para a nossa autoestima, mas não significa uma anistia para o mensalão, foi uma resposta da população ao PSDB - avalia o senador Jorge Viana (PT-AC).
A fadiga da candidatura José Serra, o temor de nova renúncia do tucano, a divisão do PSDB e a enorme rejeição ao atual prefeito, Gilberto Kassab, aliados ao desembarque maciço da presidente Dilma Rousseff e de seus ministros na capital paulista, também contribuíram para o sucesso de Lula como cabo eleitoral de Haddad. O lulismo não teve o mesmo efeito em redutos importantes como Salvador, Manaus, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte e Campinas, mas essas derrotas foram neutralizadas com a eleição de seu "poste" Fernando Haddad e a colocação do PT no reduto mais forte do PSDB até agora.
- Lula saiu (da presidência) muito bem avaliado, e a presidente Dilma também é muito bem avaliada. Pesaram também o discurso do alinhamento com o governo federal, a avaliação extremamente negativa de Kassab, a rejeição de Serra, que abandonou os mandatos, e a divisão do PSDB, que tinha um pré-candidato, mas Serra novamente se impôs. Não foi só o Lula como cabo eleitoral o responsável pela vitória do Haddad. Ele não é mágico! Ele tirou da cartola um candidato novo, que poderia vingar ou não - avalia a cientista política da PUC-SP Vera Chaia.
Em conversas internas nos últimos dias, o ministro Gilberto Carvalho, um dos mais próximos de Lula, tem adiantado o papel do ex-presidente depois de eleger Haddad.
- Lula, como o grande cabo eleitoral do PT, conseguiu terminar essa campanha muito afinado com a presidente Dilma. Ele está tão forte como antes. Agora é consolidar a base para que a presidente Dilma termine bem esses dois anos que faltam do primeiro mandato e preparar a engenharia de 2014 - disse Carvalho durante viagem ao Acre.
Não foi fácil para Lula, ainda enfrentando as sequelas de uma batalha contra um câncer na laringe e com problemas de voz, carregar Haddad para a vitória. Para isso ele empenhou o próprio capital pessoal. Primeiro, sofreu o desgaste de ir pessoalmente à casa do deputado Paulo Maluf (PP-SP) - procurado pela Interpol - para selar o apoio ao petista. Depois, acompanhou Haddad em atividades de campanha e participou de comícios, discursando até o limite da voz.
Haddad reconhece que foi jogo duro decolar. Na última sexta-feira, o primeiro telefonema depois do último debate do segundo turno, na TV Globo, foi para comemorar com Lula, que o carregou pela mão durante toda a campanha.
- É muito forte participar de uma campanha dessas. Mas é um jogo que vale a pena jogar pelo menos uma vez na vida. O resultado da primeira pesquisa Datafolha foi enlouquecedor. E quando eu caí de 4% para 3%? - relembrou Haddad.
No auge das dificuldades de Haddad para passar ao segundo turno, Lula convenceu Dilma a se jogar na campanha. Até então, pensando em não dividir sua base, ela estava renitente. Depois de apelo de Lula, ela não só subiu no palanque do petista, como passou a alvo da oposição, que a acusa de ter acomodado Marta Suplicy no Ministério da Cultura para que ela ajudasse Haddad na campanha.
- Em pouquíssimos meses, a presidente Dilma desconstruiu o que vinha fazendo em relação à faxina, à não interferência do Estado em beneficio do partido. Com muita rapidez, ela distribuiu espaços do poder, inverteu a lógica republicana de que o Estado não pode estar a serviço de um partido - criticou o senador Aécio Neves (PSDB-MG), potencial adversário do PT em 2014.
Ainda no primeiro turno, para garantir o apoio do PP a Haddad, negociado pelo ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, Lula ficou contra Alexandre Almeida, candidato do próprio PT em Campina Grande. Em troca desse apoio, ele gravou mensagem apoiando a candidatura da irmã do ministro, Daniela Ribeiro (PP). O PT foi à Justiça contra Lula, e a gravação foi tirada do ar pelo juiz Ruy Jander Teixeira.
No segundo turno, para ter o apoio do PDT a Haddad, Lula gravou vídeo de apoio à reeleição do prefeito de Macapá, Roberto Góes, preso pela Operação Mãos Limpas, da Polícia Federal, dois anos atrás. Em outro vídeo gravado em 2010, divulgado pelos adversários de Góes, Lula aparece apoiando a prisão do prefeito: "Quando tem roubo, a gente pega. Vocês viram o que aconteceu no Amapá".